Promotores federais dos Estados Unidos acusaram formalmente Michele Spagnuolo, funcionário do Google, de usar informações internas confidenciais da empresa para obter cerca de US$ 1,2 milhão (aproximadamente R$ 6 milhões) em apostas na plataforma de previsões Polymarket. O caso envolve acusações de fraude de commodities, fraude eletrônica e lavagem de dinheiro.
Segundo a denúncia apresentada pelo escritório do procurador federal do Distrito Sul de Nova York, Spagnuolo teria usado informações “comercialmente valiosas e não públicas” do Google para apostar em eventos ligados às tendências de busca da empresa antes que os dados fossem divulgados ao mercado.
Prisão, fiança milionária e pseudônimo “AlphaRaccoon”
Spagnuolo, cidadão italiano de 36 anos que vive na Suíça, foi preso em Nova York na quarta-feira (27) e apresentado perante a Justiça federal. Ele acabou liberado após pagamento de fiança estimada em US$ 2,25 milhões (cerca de R$ 11 milhões). Até o momento, não apresentou declaração formal de culpa ou inocência.
De acordo com investigadores, ele operava no Polymarket sob o pseudônimo “AlphaRaccoon” e realizou ao menos 16 transações entre outubro e dezembro de 2025 relacionadas às listas internas do Google sobre assuntos e pessoas mais pesquisadas do ano.
Apostas chamaram atenção por previsões improváveis
O caso começou a despertar suspeitas quando apostas feitas pelo usuário “AlphaRaccoon” acertaram previsões consideradas improváveis.
Entre os exemplos citados pela acusação está a aposta de que o cantor D4vd apareceria como a pessoa mais pesquisada no Google em 2025 — algo que, segundo relatos, possuía probabilidade extremamente baixa atribuída pelo mercado naquele momento.
Investigadores afirmam ainda que Spagnuolo apostou corretamente sobre nomes que não apareceriam na lista anual “Year in Search”, incluindo o Papa Leão XIV e o rapper Kendrick Lamar.
Essas previsões seriam difíceis de acertar porque o ranking anual do Google não mede apenas volume absoluto de buscas, mas principalmente o crescimento proporcional de interesse durante o período analisado.
Como o esquema teria funcionado
Segundo promotores, Spagnuolo acessava ferramentas internas do Google usadas para acompanhar tendências de buscas e materiais de marketing classificados como confidenciais.
A acusação afirma que ele sabia antecipadamente quais nomes apareceriam nas listas anuais antes da divulgação pública, criando uma vantagem informacional sobre os demais apostadores do Polymarket.
Após lucrar com as apostas, investigadores dizem que ele tomou medidas para esconder a origem dos ganhos e obscurecer sua propriedade, motivando também a acusação de lavagem de dinheiro.
Google e Polymarket se pronunciam
O Google afirmou estar cooperando com as autoridades e informou que Spagnuolo foi colocado em licença.
Segundo a empresa, embora a ferramenta usada estivesse disponível internamente para funcionários, utilizar informações confidenciais para apostas constitui uma violação grave das políticas corporativas.
Já o Polymarket afirmou que seus sistemas internos de integridade detectaram atividade suspeita e auxiliaram investigadores.
Em comunicado, a plataforma declarou que transações feitas em blockchain são transparentes e rastreáveis, permitindo identificar comportamentos considerados irregulares.
Caso amplia debate sobre insider trading em mercados de previsão
O episódio ocorre em meio ao aumento do escrutínio regulatório sobre mercados de previsão como Polymarket e Kalshi.
Autoridades americanas vêm debatendo até que ponto plataformas de apostas baseadas em eventos do mundo real podem ser exploradas por pessoas com acesso privilegiado a informações ainda não públicas.
Este é pelo menos o segundo caso criminal recente nos EUA envolvendo suposto uso de informação privilegiada em plataformas desse tipo, ampliando a pressão regulatória sobre um setor que mistura apostas, finanças e previsões de mercado.