Softwares de monitoramento profissional compartilham dados de funcionários com Big Techs

Empresas que utilizam softwares de monitoramento corporativo podem estar permitindo o compartilhamento de informações pessoais e hábitos digitais de funcionários com grandes empresas de tecnologia e publicidade. A conclusão é de uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Northeastern University, nos Estados Unidos, que analisou plataformas usadas para supervisão de produtividade, registro de jornada e acompanhamento de atividades em dispositivos corporativos.

Segundo o estudo, dados identificáveis dos trabalhadores estavam sendo enviados para companhias como Google, Microsoft e Meta, além de empresas ligadas ao setor de publicidade digital.

Pesquisa encontrou compartilhamento de dados em todas as plataformas analisadas

O levantamento examinou nove softwares de monitoramento profissional usados por empresas de diferentes segmentos.

Entre as funcionalidades avaliadas estavam ferramentas de:

  • Controle de produtividade;
  • Registro de jornada de trabalho;
  • Supervisão remota de atividades;
  • Rastreamento de dispositivos corporativos;
  • Monitoramento de localização.

Para investigar o comportamento dos aplicativos, os pesquisadores criaram perfis de gestores e funcionários e instalaram os sistemas em computadores e smartphones.

Com auxílio de uma ferramenta de código aberto capaz de interceptar tráfego de rede, a equipe acompanhou os dados enviados pelos programas.

Segundo os pesquisadores, todas as plataformas avaliadas compartilhavam algum tipo de informação pessoal dos usuários.

Dados enviados incluíam identidade, navegação e informações do dispositivo

O estudo identificou o envio de informações consideradas sensíveis ou identificáveis, incluindo:

  • Nome completo;
  • Endereço de e-mail;
  • Relação empregatícia;
  • Histórico de navegação;
  • Endereço IP;
  • Dados do aparelho utilizado;
  • Sites visitados pelos trabalhadores.

Os autores afirmam que os aplicativos também enviavam informações para mais de 145 domínios externos ligados a tecnologia, publicidade e serviços analíticos.

Na avaliação dos pesquisadores, o problema vai além da coleta de dados feita pela própria empresa empregadora.

Segundo David Choffnes, um dos autores do estudo, muitos funcionários não têm clareza sobre a extensão desse compartilhamento nem sobre quais organizações recebem seus dados.

Algumas plataformas monitoravam localização fora do expediente

Outro ponto considerado preocupante pela pesquisa envolve rastreamento de localização.

Os pesquisadores identificaram sistemas capazes de monitorar a posição precisa dos trabalhadores mesmo quando os aplicativos permaneciam em segundo plano.

Isso significa que, em alguns casos, o software poderia continuar acompanhando deslocamentos mesmo fora do período de expediente.

Segundo David Choffnes, esse cenário amplia significativamente riscos de privacidade.

“Agora você tem o programa de monitoramento capaz de te seguir enquanto você se move pelo mundo”, afirmou o pesquisador ao comentar os recursos encontrados.

Empresas citaram uso operacional e governança de dados

Após a divulgação das descobertas, apenas parte das empresas responsáveis pelos softwares respondeu aos pesquisadores.

Segundo o estudo:

  • Uma plataforma afirmou utilizar fornecedores externos considerados confiáveis;
  • Outra alegou que comunicações com terceiros cumprem objetivos operacionais, analíticos e de rastreamento legítimos;
  • Algumas empresas pediram mais detalhes ou afirmaram que responderiam posteriormente.

Especialistas pedem regulamentação para vigilância corporativa

Para Laura Edelson, revisora do estudo, a pesquisa oferece evidências técnicas concretas sobre preocupações já debatidas há anos por especialistas em vigilância no ambiente de trabalho.

Segundo ela, faltavam medições objetivas capazes de demonstrar exatamente para onde os dados dos trabalhadores estavam sendo enviados.

A partir das conclusões, os autores defendem que legisladores e órgãos reguladores avaliem:

  • Limites para coleta de dados no trabalho;
  • Restrições ao compartilhamento com terceiros;
  • Regras mais transparentes sobre consentimento;
  • Possíveis violações de proteção ao consumidor;
  • Práticas corporativas consideradas abusivas.

O que isso significa na prática para funcionários?

O estudo reacende um debate crescente sobre privacidade no trabalho digital.

Embora softwares de monitoramento sejam frequentemente apresentados como ferramentas de produtividade, especialistas alertam que parte deles pode coletar muito mais do que horário ou desempenho profissional.

Dependendo da configuração adotada pela empresa, esses sistemas podem mapear hábitos digitais, localização, padrões de comportamento e interações online — ampliando preocupações sobre transparência, consentimento e limites da vigilância no ambiente corporativo.