Relatório de transparência do NSO Group levanta mais dúvidas do que respostas

O NSO Group, um dos nomes mais conhecidos — e mais controversos — do mercado de spyware governamental, publicou nesta semana um novo relatório de transparência. A empresa afirma estar entrando em uma “nova fase de prestação de contas”. Na prática, porém, o documento traz menos dados do que os relatórios anteriores e reforça a desconfiança de especialistas sobre as reais intenções da companhia.

Diferente das divulgações passadas, o relatório atual não informa quantos clientes foram investigados, suspensos ou tiveram contratos encerrados por violações de direitos humanos. Também não apresenta números sobre oportunidades de negócios recusadas por esse motivo. Há promessas de respeito a direitos fundamentais e de mecanismos de controle, mas nenhuma evidência concreta que permita validar essas afirmações.

Pressão para sair da lista negra dos EUA

Para analistas que acompanham o setor de vigilância digital, o documento faz parte de uma estratégia maior. O objetivo seria convencer o governo dos Estados Unidos a retirar a NSO da chamada Lista de Entidades, que impede empresas americanas de fazer negócios com ela.

Desde que um grupo de investidores dos EUA comprou a NSO no ano passado, a empresa passou por uma reestruturação profunda. O ex-integrante do governo Trump, David Friedman, assumiu como presidente executivo, o CEO Yaron Shohat deixou o cargo e Omri Lavie, último fundador ainda ativo, também saiu. A leitura no mercado é que essas mudanças buscam limpar a imagem da empresa para facilitar sua entrada no mercado americano.

No próprio relatório, Friedman afirma que, quando os produtos da NSO estão “nas mãos certas e nos países certos”, o mundo se torna mais seguro. O texto, no entanto, não menciona em quais países a empresa opera.

Para Natalia Krapiva, consultora jurídica da organização Access Now, a estratégia é clara: mudar a liderança, publicar relatórios de transparência e tentar convencer Washington de que a empresa mudou. O problema, segundo ela, é que esse roteiro já foi visto antes no setor de spyware, sem que os abusos realmente cessassem.

Um histórico de números que agora sumiram

O contraste com relatórios anteriores chama atenção. Em documentos passados, a NSO divulgava métricas que permitiam ao menos algum nível de análise externa.

No relatório referente a 2024, por exemplo, a empresa afirmou ter aberto três investigações por possível uso indevido, rompido relações com um cliente e imposto medidas corretivas a outro, além de ter rejeitado mais de 20 milhões de dólares em novos contratos por preocupações com direitos humanos.

No período de 2022 e 2023, a NSO disse ter suspendido ou encerrado contratos com seis clientes governamentais, alegando uma perda de 57 milhões de dólares em receita. Em 2021, afirmou ter desconectado sistemas de cinco clientes e encerrado relações com outros cinco, citando perdas superiores a 100 milhões de dólares.

Nada disso aparece no relatório mais recente. Nem mesmo o número total de clientes da empresa, que sempre foi informado antes, foi incluído desta vez.

Falta de verificabilidade

O pesquisador John Scott-Railton, do Citizen Lab, resumiu a frustração da comunidade de direitos digitais: o relatório não traz números, métricas ou dados que permitam verificação independente. Para ele, isso segue o padrão de uma empresa que há mais de uma década faz promessas que depois não se confirmam.

No fim das contas, o novo relatório de transparência da NSO parece mais um exercício de relações públicas do que um documento capaz de restaurar confiança. Em um mercado marcado por abusos, vigilância ilegal e violações de direitos humanos, transparência real exige mais do que discursos e mudanças cosméticas na liderança. Exige dados, fatos e responsabilidade mensurável.