Empresas globais de monitoramento de tráfego digital registraram um colapso praticamente completo da conectividade com a internet no Irã na última quinta-feira, em meio a uma onda de protestos que se espalhou por várias cidades do país.
Segundo Amir Rashidi, pesquisador iraniano de segurança cibernética do Miaan Group, o país ficou “praticamente desconectado do mundo exterior”. A avaliação é confirmada por Doug Madory, diretor de análise de internet da Kentik, que classificou a situação como um “apagão quase total” a partir das 11h30 da manhã no horário da costa leste dos Estados Unidos, o que corresponde às 20h em Teerã.
Plataformas independentes que acompanham a saúde da rede global, como NetBlocks, Cloudflare e IODA, detectaram quedas simultâneas e abruptas no tráfego de dados em todo o território iraniano. De acordo com David Belson, chefe de análise de dados da Cloudflare, ainda havia um pequeno volume de tráfego, mas, na prática, o país estava efetivamente offline.
Crise econômica e repressão digital
O bloqueio acontece em um momento de forte instabilidade interna. No fim de dezembro, protestos ganharam força após uma queda acentuada da moeda iraniana, que gerou escassez de produtos e aumentos expressivos nos preços. Em Teerã, lojas do tradicional bazar ficaram fechadas por quase duas semanas, segundo reportagens da imprensa internacional.
Diante das manifestações, o governo intensificou a repressão e, segundo especialistas, recorreu novamente a uma de suas ferramentas mais conhecidas: o controle da infraestrutura de internet. Rashidi afirma que o regime iraniano, que já mantém um sistema altamente centralizado de censura e vigilância online, foi o responsável direto pelo desligamento em larga escala.
Até o momento, representantes do governo iraniano não comentaram oficialmente o episódio. O site do Ministério das Relações Exteriores do país também estava fora do ar durante o período do apagão.
Internet como instrumento político
O caso reforça como a conectividade se tornou um campo de disputa política. Em regimes autoritários, cortar a internet não é apenas uma medida técnica, mas uma forma de limitar a organização de protestos, bloquear a circulação de informações e reduzir a visibilidade internacional de crises internas.
No Irã, essa estratégia já foi usada diversas vezes ao longo da última década. O episódio mais recente mostra que, em momentos de tensão, o botão de desligar a internet continua sendo uma das armas mais rápidas e eficazes do Estado para controlar o fluxo de informação.