Vulnerabilidade crítica em chips Qualcomm permite acesso total ao dispositivo e não pode ser corrigida

Pesquisadores da empresa de cibersegurança Kaspersky revelaram detalhes sobre uma vulnerabilidade crítica presente em diversos chips da Qualcomm. Identificada como CVE-2026-25262, a falha é considerada especialmente grave porque está localizada na BootROM do processador, uma área de memória permanente que não pode ser atualizada ou corrigida por software.

A descoberta foi comunicada à Qualcomm em março de 2025. Embora a fabricante tenha confirmado a existência do problema na época, os detalhes técnicos só foram divulgados agora devido à complexidade e ao impacto potencial da vulnerabilidade.

Falha está na BootROM do processador

A BootROM é um componente essencial presente diretamente no hardware do chip. Ela é executada nos primeiros instantes da inicialização do dispositivo e tem a função de validar o carregamento do sistema operacional.

O problema identificado pelos pesquisadores permite que um invasor grave código malicioso nessa etapa crítica do processo de inicialização. Como resultado, o malware pode operar antes mesmo do sistema operacional ser carregado, dificultando significativamente sua detecção por ferramentas tradicionais de segurança.

Por estar incorporada fisicamente ao processador, a BootROM não pode ser modificada por atualizações de firmware ou patches de segurança, tornando a vulnerabilidade permanente nos dispositivos afetados.

Como o ataque funciona

A exploração da falha ocorre por meio do protocolo Sahara, uma ferramenta de recuperação utilizada por fabricantes e centros de assistência técnica para restaurar dispositivos com problemas graves de funcionamento.

Ao conectar o aparelho via USB, um invasor com acesso físico ao dispositivo pode enviar comandos especialmente preparados para explorar uma condição conhecida como “Write-What-Where”. Esse tipo de vulnerabilidade permite escrever dados arbitrários em locais específicos da memória do processador.

Com isso, o atacante pode executar código malicioso em níveis extremamente privilegiados do sistema.

O que os criminosos podem fazer

Segundo a Kaspersky, uma exploração bem-sucedida da vulnerabilidade pode conceder acesso completo ao dispositivo.

Entre as informações potencialmente expostas estão:

  • Senhas armazenadas no aparelho;
  • Arquivos pessoais;
  • Contatos;
  • Dados de localização;
  • Histórico de atividades;
  • Informações de aplicativos.

Além disso, o invasor pode acessar componentes sensíveis do hardware, incluindo:

  • Câmera;
  • Microfone;
  • Sensores internos do dispositivo.

Nos cenários mais graves, a falha pode permitir o controle total do aparelho comprometido.

Chips afetados

A vulnerabilidade afeta processadores mais antigos da Qualcomm que já não recebem suporte oficial. Entre os modelos identificados estão:

  • MDM9x07 (Snapdragon X5 LTE);
  • MDM9x45 (Snapdragon X12);
  • MDM9x65 (modem Snapdragon X20);
  • MSM8909 (Snapdragon 210);
  • MSM8916 (Snapdragon 410);
  • MSM8952 (Snapdragon 617);
  • SDX50.

Apesar de antigos, muitos desses chips ainda estão presentes em smartphones, dispositivos industriais, equipamentos médicos e soluções de Internet das Coisas (IoT).

O Snapdragon 410, por exemplo, equipou aparelhos populares como o Moto G4 Play, o Samsung Galaxy A3 e o LG K10.

Existe correção?

Não.

Como a falha está localizada na BootROM, não há possibilidade de corrigir o problema por meio de atualizações de software.

A Qualcomm informou que os futuros chips da empresa serão desenvolvidos sem essa vulnerabilidade, mas os modelos já fabricados permanecerão vulneráveis.

Meus dispositivos estão em risco?

Embora a vulnerabilidade seja extremamente séria, sua exploração exige acesso físico ao aparelho durante alguns minutos. Isso significa que o ataque não pode ser realizado remotamente por meio de links maliciosos, aplicativos ou mensagens.

Os principais cenários de risco incluem:

  • Assistências técnicas não confiáveis;
  • Dispositivos perdidos ou roubados;
  • Ambientes corporativos com ameaça interna;
  • Casos de espionagem direcionada.

Outro fator que reduz o impacto é que o código malicioso instalado através dessa técnica pode ser removido ao interromper completamente a alimentação elétrica do dispositivo, como ao remover a bateria ou deixar o aparelho descarregar totalmente.

Como se proteger

Usuários de dispositivos afetados devem adotar algumas medidas preventivas:

  • Evitar deixar o aparelho sem supervisão;
  • Utilizar apenas assistências técnicas autorizadas;
  • Não conectar o dispositivo a computadores desconhecidos;
  • Observar comportamentos anormais, como superaquecimento, consumo excessivo de bateria ou tráfego incomum de rede;
  • Substituir dispositivos antigos quando possível.

Até o momento, não existem relatos públicos de exploração ativa da vulnerabilidade, mas especialistas alertam que a falha representa um risco significativo para equipamentos que ainda utilizam os processadores afetados.