Uma nova onda de conteúdo tem ganhado força na internet: criadores de conteúdo que se passam por menores de idade em conversas virtuais para atrair, confrontar e expor suspeitos de crimes sexuais. Conhecida como predator catching (ou “caça a predadores”), a prática virou um verdadeiro gênero de entretenimento e denúncia em redes sociais como YouTube, TikTok e Instagram.
Apesar de atraírem milhões de visualizações e, em alguns casos, ajudarem a levar suspeitos à polícia, o trabalho desses vigilantes digitais tem preocupado especialistas em direito e cibersegurança.
Como funciona o “predator catching”?
A dinâmica é simples e costuma seguir o mesmo roteiro:
- Isca online: O influenciador (ou sua equipe) cria perfis falsos fingindo ser um adolescente ou criança em aplicativos e redes sociais.
- Agendamento: Ele mantém conversas com suspeitos até que eles marquem um encontro presencial.
- Confronto: No local combinado, o influenciador aparece com câmeras ligadas, confronta o suspeito publicamente e grava a reação dele.
- Publicação ou Polícia: O vídeo é editado para gerar visualizações na internet e, em algumas situações, as autoridades são chamadas ao local.
O formato se inspirou em programas norte-americanos clássicos de TV, como o To Catch a Predator, e hoje é produzido por canais com milhões de inscritos nos Estados Unidos e também no Brasil.
Por que a prática é criticada por especialistas?
Apesar da intenção declarada de combater crimes graves, a atuação de “detetives particulares” sem treinamento jurídico traz sérios riscos para o processo legal:
- Inutilização de provas: Na lei brasileira, induzir ou provocá-lo a cometer um ato para gerar o flagrante pode desqualificar a prova na Justiça (o chamado “flagrante preparado”).
- Atrapalha investigações reais: A exposição pública pode fazer com que outros suspeitos envolvidos na mesma rede apaguem arquivos, destruam dispositivos ou fujam antes de uma ação policial oficial.
- Risco de linchamentos e erros: Identificações incorretas ou interpretações equivocadas de mensagens podem expor pessoas inocentes a agressões e violência.
- Interesse comercial: Muitos críticos apontam que a motivação principal de alguns criadores é o engajamento e a monetização dos vídeos, transformando um assunto sensível em espetáculo.
O que diz a lei?
Segundo advogados criminalistas, o combate a crimes contra crianças e adolescentes é prioridade absoluta, mas deve ser feito pelas autoridades competentes.
No Brasil, qualquer pessoa pode coletar prints e conversas e entregar à polícia, mas criar “operações” particulares não substitui uma investigação oficial. Além disso, a pessoa exposta nos vídeos — mesmo se for culpada — pode processar o influenciador por violação de direito de imagem ou uso comercial não autorizado de sua figura.
Como denunciar crimes sexuais na internet com segurança
Caso você identifique ou suspeite de crimes virtuais contra crianças e adolescentes, o caminho recomendado é reportar diretamente aos canais oficiais:
- SaferNet Brasil: Oferece o HelpLine para orientação anônima e um canal direto para denúncias no site.
- Disque 100: Serviço da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos que recebe denúncias de violações contra crianças e adolescentes.
- Polícia e Ministério Público: Reúna as evidências (links, prints e conversas) e entregue diretamente em uma delegacia ou no Ministério Público da sua região.