A Trocafone, uma das principais empresas brasileiras especializadas na compra e revenda de celulares usados e recondicionados, entrou no radar do Ministério Público de São Paulo durante uma investigação sobre um esquema de roubo, furto, adulteração e comercialização ilegal de smartphones. A empresa nega envolvimento com atividades criminosas e afirma colaborar com as autoridades.
A investigação faz parte da Operação Frankmobile, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com forças policiais. O objetivo é descobrir como aparelhos roubados ou furtados conseguiam voltar ao mercado formal depois de passarem por diferentes etapas de adulteração e recondicionamento.
O caso chama atenção especialmente porque envolve uma empresa conhecida no mercado de smartphones seminovos. A investigação busca determinar se aparelhos de origem ilícita chegaram à cadeia comercial da companhia e se houve falhas nos mecanismos utilizados para verificar a procedência dos dispositivos.
Investigação encontrou centenas de milhares de aparelhos sem nota de entrada
Um dos principais pontos levantados pelos investigadores envolve a documentação fiscal dos aparelhos.
De acordo com informações obtidas durante a investigação, uma análise realizada pela Fazenda de São Paulo identificou 759.317 celulares vendidos ou movimentados por uma filial da Trocafone sem notas fiscais de entrada. Para o Ministério Público, a ausência desses documentos representa um indício relevante sobre a possível origem dos aparelhos e precisa ser esclarecida pela empresa.
Isso não significa, por si só, que todos esses celulares tenham sido roubados ou furtados. A ausência de documentação é um dos elementos analisados pelas autoridades dentro de uma investigação muito maior.
A questão central é entender de onde vieram os aparelhos, quem os forneceu e quais procedimentos foram utilizados pela empresa para verificar a origem dos produtos antes que eles fossem revendidos.
Essa etapa é especialmente importante no mercado de celulares usados, no qual aparelhos podem passar por diversas empresas antes de chegar ao consumidor final.
Empresa apareceu em relatórios do Coaf
Outro elemento analisado pelos investigadores envolve movimentações financeiras.
Segundo o Gaeco, a Trocafone foi citada em 18 relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) produzidos entre 2018 e 2024. Os documentos apontariam movimentações consideradas suspeitas que somariam aproximadamente R$ 95,8 milhões.
A investigação também identificou 1.299 depósitos fracionados, prática que pode ser utilizada para dificultar o rastreamento da origem dos recursos e que, por isso, costuma ser analisada em investigações relacionadas à lavagem de dinheiro.
É importante destacar, porém, que aparecer em um relatório do Coaf não significa automaticamente que uma empresa ou pessoa tenha cometido um crime. Os relatórios servem justamente para comunicar movimentações que merecem análise das autoridades.
Agora, cabe à investigação verificar se essas operações possuem relação com o esquema criminoso investigado ou se podem ser explicadas por atividades comerciais legítimas.
Peças de celulares roubados também teriam sido utilizadas
A investigação não se limita aos aparelhos completos.
Segundo informações obtidas pelo Ministério Público, peças retiradas de celulares roubados ou furtados também poderiam estar sendo utilizadas no processo de recondicionamento de dispositivos. Um gerente ouvido durante a investigação teria relatado que componentes de aparelhos de origem ilícita eram usados nesse tipo de atividade desde 2014.
Esse detalhe é importante porque um celular roubado não precisa necessariamente voltar ao consumidor exatamente como foi levado da vítima.
Em muitos casos, o aparelho pode ser desmontado e ter componentes aproveitados. Tela, câmera, bateria, placa, carcaça e outros componentes possuem valor comercial, especialmente quando utilizados para recuperar outros smartphones.
Esse mercado paralelo cria uma cadeia difícil de rastrear. Um aparelho roubado pode deixar de existir como um produto completo e seus componentes podem acabar incorporados a diferentes dispositivos.
Como funciona o esquema investigado
A Operação Frankmobile aponta para uma estrutura dividida em diferentes etapas.
Segundo as autoridades, existiriam grupos responsáveis por diferentes partes da cadeia criminosa, incluindo obtenção dos celulares, desbloqueio, alteração de identificadores, recondicionamento e revenda.
Um dos elementos mais importantes nesse processo é o IMEI, código exclusivo utilizado para identificar um aparelho celular nas redes móveis.
Criminosos podem tentar modificar ou adulterar o IMEI de aparelhos roubados para dificultar sua identificação e permitir que eles voltem a funcionar. Técnicas desse tipo podem envolver softwares especializados ou alterações físicas em componentes do dispositivo.
Investigações relacionadas à operação também encontraram estabelecimentos que cobravam aproximadamente R$ 300 para desbloquear celulares roubados, utilizando ferramentas capazes de modificar restrições relacionadas ao IMEI.
Esse tipo de procedimento é particularmente perigoso porque transforma um aparelho que deveria permanecer bloqueado em um produto que pode voltar a ser comercializado.
Mais de 80 mandados foram cumpridos
A dimensão da operação mostra que as autoridades estão investigando uma estrutura considerada ampla.
A Justiça autorizou o cumprimento de 84 mandados de busca e apreensão e sete mandados de prisão temporária, realizados em endereços localizados principalmente em São Paulo e Goiás. Também foram determinadas medidas para bloquear bens e valores relacionados aos investigados.
Mais de 10 mil celulares foram apreendidos durante as ações relacionadas ao combate à cadeia de comercialização dos aparelhos roubados. Os investigadores agora precisam cruzar informações dos dispositivos encontrados com registros de ocorrências policiais para tentar descobrir quais aparelhos pertenciam às vítimas.
A operação também atingiu empresas e estabelecimentos que, segundo o Ministério Público, desempenhariam funções diferentes dentro da cadeia investigada.
Trocafone nega envolvimento
Apesar das suspeitas levantadas pelo Ministério Público, a Trocafone nega participação em qualquer esquema criminoso.
A empresa afirma manter controles para verificar a procedência dos aparelhos comercializados e diz estar colaborando com as autoridades responsáveis pela investigação. A companhia também deverá apresentar informações e documentos que possam esclarecer a origem dos celulares apontados no processo.
Esse ponto é fundamental: a Trocafone está sendo investigada, mas isso não significa que a empresa tenha sido considerada culpada.
O trabalho do Ministério Público ainda está em andamento e deverá determinar se os indícios encontrados representam irregularidades criminosas, falhas de controle ou situações que possam ser justificadas pela própria operação comercial da empresa.
O que o caso muda para quem compra celular usado?
A investigação serve também como alerta para consumidores.
Comprar um smartphone usado pode ser uma alternativa mais barata para quem deseja adquirir aparelhos de categorias intermediárias ou premium. Entretanto, o comprador precisa tomar alguns cuidados para evitar adquirir um dispositivo roubado, furtado ou com problemas de identificação.
Antes de fechar negócio, é importante verificar o IMEI do aparelho e conferir se ele possui alguma restrição. O consumidor também deve exigir documentação que permita comprovar a origem do produto, principalmente quando o valor da compra é elevado.
Outra recomendação é evitar smartphones vendidos muito abaixo do preço normalmente praticado no mercado. Uma diferença exagerada pode indicar problemas com procedência, bloqueios ou até mesmo adulteração do dispositivo.
No caso de aparelhos usados vendidos por empresas especializadas, o consumidor deve priorizar estabelecimentos que ofereçam nota fiscal, garantia e informações claras sobre a origem e o processo de recondicionamento do produto.
A Operação Frankmobile mostra que o problema dos celulares roubados vai muito além do momento em que o aparelho é levado da vítima. Existe uma cadeia capaz de envolver desbloqueio, adulteração, reaproveitamento de peças e tentativa de reinserção desses dispositivos no mercado formal.
Agora, a investigação do Ministério Público terá de esclarecer qual foi exatamente o papel de cada empresa e indivíduo envolvido e, no caso da Trocafone, se houve participação consciente em qualquer etapa desse processo ou se os aparelhos chegaram à companhia por meio de fornecedores que ocultaram sua verdadeira origem.