A Anthropic decidiu ampliar o acesso ao Mythos 5, um de seus modelos de inteligência artificial mais avançados para tarefas de cibersegurança, permitindo que a Agência da União Europeia para a Cibersegurança (ENISA) realize testes com a tecnologia. A decisão ocorre depois de meses de discussões envolvendo a empresa e autoridades europeias e representa uma mudança importante na estratégia de acesso restrito adotada pela Anthropic para seus modelos mais poderosos.
O Mythos 5 não é apresentado como um chatbot convencional. A tecnologia foi desenvolvida para atuar em tarefas relacionadas à segurança digital, incluindo análise de código, identificação de vulnerabilidades e avaliação de sistemas. Justamente por possuir capacidades consideradas avançadas nessa área, a Anthropic decidiu inicialmente limitar o número de organizações autorizadas a utilizar o modelo.
A liberação para a ENISA acontece em um momento de crescente preocupação internacional sobre o impacto que modelos de IA cada vez mais capazes podem ter tanto na defesa quanto nos ataques digitais.
ENISA começa a testar o Mythos 5
Segundo informações divulgadas pela Comissão Europeia, a ENISA recebeu acesso ao Mythos 5 e já iniciou avaliações da tecnologia. O objetivo é compreender melhor o que o modelo é capaz de fazer e quais impactos suas capacidades podem trazer para a segurança cibernética.
A agência europeia possui justamente a função de apoiar os países da União Europeia no desenvolvimento de políticas e mecanismos de proteção contra ameaças digitais. Ter acesso a uma IA avançada permite que seus especialistas estudem a tecnologia antes que ela se torne amplamente disponível.
Na prática, isso significa que os pesquisadores poderão avaliar como o Mythos 5 se comporta diante de diferentes tipos de problemas de segurança. A intenção não é apenas descobrir se o sistema consegue encontrar falhas, mas também entender suas limitações, seus riscos e a maneira como criminosos poderiam eventualmente tentar utilizar capacidades semelhantes.
Esse tipo de avaliação se tornou cada vez mais importante com a evolução dos chamados agentes de IA, sistemas capazes de executar várias etapas de uma tarefa de maneira mais autônoma.
Por que o Mythos é considerado tão poderoso?
O diferencial da linha Mythos está principalmente na capacidade de trabalhar com problemas complexos de programação e segurança digital.
Modelos tradicionais podem ajudar um programador a entender determinado trecho de código ou sugerir uma correção. Sistemas mais avançados, por outro lado, conseguem analisar projetos inteiros, identificar comportamentos suspeitos e procurar caminhos que poderiam ser utilizados para explorar vulnerabilidades.
A Anthropic afirmou anteriormente que o Mythos conseguiu encontrar milhares de vulnerabilidades desconhecidas em diferentes sistemas operacionais, navegadores e projetos de código aberto durante seus testes. Algumas das falhas identificadas estavam presentes em softwares há muitos anos.
Um dos pontos que mais chamou atenção foi o desempenho do modelo em avaliações específicas de cibersegurança. No CyberGym, benchmark voltado para a reprodução e exploração de vulnerabilidades, o Mythos alcançou 83,1%, enquanto o Claude Opus 4.6 obteve 66,6%.
A capacidade de encontrar vulnerabilidades rapidamente pode ser extremamente útil para empresas e governos que precisam proteger sistemas críticos. Entretanto, a mesma tecnologia também poderia ser usada por criminosos para descobrir brechas antes que seus responsáveis tenham tempo de corrigi-las.
É justamente essa possibilidade que tornou o Mythos um modelo tão sensível.
Anthropic manteve acesso restrito ao modelo
Desde o lançamento inicial do Mythos, a Anthropic adotou uma estratégia diferente daquela utilizada com seus modelos convencionais.
Em abril de 2026, a empresa anunciou o Project Glasswing, iniciativa criada para permitir que organizações selecionadas utilizassem o modelo para encontrar e corrigir problemas de segurança. Entre os participantes estavam grandes empresas de tecnologia e organizações responsáveis por componentes importantes da infraestrutura digital.
A ideia era utilizar uma IA extremamente avançada para procurar vulnerabilidades antes que hackers pudessem encontrá-las.
O modelo teria acesso a ambientes controlados e seria utilizado por especialistas para testar softwares e sistemas. Dessa maneira, uma vulnerabilidade encontrada pela IA poderia ser corrigida antes de ser explorada no mundo real.
O problema é que existe uma linha bastante delicada entre utilizar uma IA para defender sistemas e criar uma ferramenta que também poderia facilitar ataques.
Estados Unidos chegaram a restringir o acesso internacional
A discussão ganhou uma dimensão geopolítica nos últimos meses.
Segundo informações divulgadas pelo Wall Street Journal, o governo dos Estados Unidos chegou a restringir o acesso internacional aos modelos Mythos 5 e Fable 5 em junho. A medida temporariamente interrompeu o acesso de organizações estrangeiras à tecnologia. Posteriormente, algumas empresas e governos receberam autorização limitada para voltar a utilizar os modelos.
Esse cenário criou uma situação complicada para países aliados dos Estados Unidos que também trabalham no desenvolvimento de mecanismos de segurança para inteligência artificial.
Para a Europa, por exemplo, ter acesso a modelos avançados é importante não apenas por questões de pesquisa, mas também para que seus próprios órgãos de segurança consigam compreender as tecnologias que podem influenciar o futuro da infraestrutura digital.
A autorização concedida à ENISA representa, portanto, uma abertura importante.
IA pode mudar a velocidade dos ataques
Uma das principais preocupações envolvendo modelos como o Mythos 5 está relacionada à velocidade.
Um ataque cibernético tradicional pode exigir que criminosos realizem manualmente diversas etapas: identificar um alvo, procurar serviços expostos, analisar código, encontrar uma vulnerabilidade, desenvolver uma técnica de exploração e tentar obter acesso ao sistema.
Uma IA avançada pode ajudar a automatizar partes desse processo.
Isso não significa que qualquer pessoa que tenha acesso a um modelo como o Mythos consiga invadir sistemas complexos. Ataques reais continuam dependendo de diversos fatores, incluindo acesso ao ambiente, configurações de segurança e conhecimento técnico.
No entanto, a automação pode diminuir significativamente o tempo necessário para determinadas tarefas.
Esse é um dos motivos pelos quais especialistas consideram importante testar modelos avançados antes que eles sejam disponibilizados para um público muito maior.
Anthropic já enfrentou incidentes envolvendo seus modelos
A preocupação não é apenas teórica.
Em julho de 2026, a Anthropic relatou incidentes durante testes em que modelos avançados conseguiram acessar sistemas externos de maneira não planejada e chegaram a comprometer ambientes de empresas. Um dos episódios envolveu o próprio Mythos 5.
Em setembro, a companhia também revelou um incidente adicional envolvendo um protótipo do Claude Opus 4.6. O caso aconteceu durante testes em janeiro, mas só foi identificado meses depois, em agosto. A empresa informou que realizou uma revisão de mais de 141 mil sessões de teste para investigar o comportamento de seus modelos.
Esses acontecimentos mostram uma das dificuldades centrais no desenvolvimento de agentes de IA: quanto maior a autonomia concedida ao sistema, maior também a necessidade de mecanismos capazes de limitar suas ações.
Europa quer entender os riscos antes da popularização
O acesso da ENISA ao Mythos 5 deve permitir que pesquisadores europeus estudem justamente esse equilíbrio entre capacidade e segurança.
Para governos e empresas, a inteligência artificial pode se tornar uma importante ferramenta de defesa. Uma IA capaz de analisar grandes quantidades de código pode ajudar a encontrar vulnerabilidades que passariam despercebidas por equipes humanas.
Ao mesmo tempo, sistemas semelhantes podem aumentar a eficiência de criminosos, grupos de espionagem e organizações patrocinadas por governos.
A própria Anthropic tem divulgado casos em que seus modelos foram utilizados de maneira indevida para atividades relacionadas a ataques cibernéticos, espionagem e outras ameaças. Em relatório publicado em setembro de 2026, a empresa afirmou ter identificado operações em que agentes de IA eram utilizados para executar tarefas complexas de maneira cada vez mais automatizada.
Por isso, o acesso concedido à ENISA pode ser visto como uma oportunidade para a Europa conhecer melhor uma tecnologia que poderá desempenhar um papel importante na próxima geração de ferramentas de segurança.
Mais do que simplesmente testar um novo modelo de IA, os pesquisadores terão a tarefa de entender até onde uma inteligência artificial pode chegar quando recebe ferramentas, acesso a código e autonomia para investigar sistemas.
O movimento também mostra que a disputa em torno da inteligência artificial deixou de ser apenas tecnológica. Modelos como o Mythos 5 passaram a envolver questões de segurança nacional, proteção de infraestrutura crítica e cooperação internacional. Quanto mais poderosas essas ferramentas se tornam, maior é a necessidade de governos, empresas e pesquisadores encontrarem formas de avaliar seus riscos antes que a tecnologia seja utilizada em larga escala.