Leis de verificação de idade avançam nos EUA e reacendem debate sobre privacidade na internet

Assim como acontece no Brasil, diversos estados dos Estados Unidos estão avançando com legislações que exigem verificação de idade online para impedir que menores acessem conteúdos restritos. A proposta afeta plataformas como redes sociais, jogos online e até sites de conteúdo adulto.

O debate ganhou força com propostas conhecidas informalmente como “Lei Felca 2.0”, que levantam uma dúvida incômoda: para proteger crianças na internet, será necessário abrir mão da privacidade de todos?

Isso porque algumas plataformas, como o Discord, já testam sistemas que pedem selfies, fotos de documentos ou até dados de cartão de crédito para confirmar a idade do usuário — criando um rastro digital permanente.

Como funciona a verificação de idade

A lógica parece simples: se uma criança não pode entrar em um bar, também não deveria acessar certos conteúdos online. O problema é que garantir isso tecnicamente exige sistemas bastante invasivos.

Para cumprir as novas leis, muitas plataformas recorrem a empresas especializadas em verificação de identidade. Esses serviços utilizam inteligência artificial para analisar fotos ou vídeos enviados pelo usuário e estimar sua idade em poucos segundos.

Em processos mais rigorosos, como em serviços financeiros ou plataformas adultas, o usuário precisa escanear um documento oficial e tirar uma foto ao vivo para provar que é realmente o dono daquele documento.

Na prática, para confirmar que alguém é maior de idade, o sistema primeiro precisa saber exatamente quem essa pessoa é.

Bancos de dados sensíveis

Em muitos casos, a plataforma que solicita a verificação não armazena diretamente essas informações. Os dados são enviados para empresas terceirizadas que processam a verificação e retornam apenas um resultado simples: aprovado ou reprovado.

Mas os dados originais — incluindo rosto, documento e data de nascimento — continuam armazenados nesses servidores externos.

Segundo o especialista em tecnologia Thiago Ayub, cada coleta desse tipo aumenta inevitavelmente o risco de vazamento.

De acordo com ele, praticamente todos os setores da economia já sofreram incidentes envolvendo dados pessoais, o que torna difícil garantir que essas informações permanecerão seguras para sempre.

Um exemplo recente reforça esse receio. No início de 2025, o próprio Discord confirmou uma violação que expôs imagens de documentos de cerca de 70 mil usuários, após o comprometimento de um serviço terceirizado responsável pela verificação de identidade.

Mudança estrutural na internet

Organizações de defesa da privacidade digital alertam que a verificação de idade pode alterar profundamente a forma como a internet funciona.

A Electronic Frontier Foundation (EFF) afirma que esse modelo conecta dados altamente sensíveis — como nome, rosto e endereço — às atividades online dos usuários.

Para a analista legislativa Molly Buckley, esse tipo de sistema ameaça princípios fundamentais de uma internet aberta e anônima.

Quando a inteligência artificial erra

Um dos métodos mais comuns nesses sistemas é a estimativa de idade facial, em que algoritmos analisam uma foto para tentar adivinhar quantos anos a pessoa tem.

Apesar dos avanços, essa tecnologia ainda possui margem de erro. O sistema pode bloquear um adulto legítimo ou permitir o acesso de um menor.

Para melhorar a precisão, os algoritmos precisam ser treinados com grandes quantidades de imagens reais — o que gera um paradoxo curioso: mais dados pessoais precisam ser coletados para tentar proteger a privacidade.

Outro problema conhecido é o viés algorítmico. Sistemas de reconhecimento facial historicamente apresentam maior taxa de erro com pessoas negras, asiáticas ou pertencentes a grupos sub-representados nos bancos de dados usados para treinamento.

Isso pode fazer com que determinados usuários enfrentem mais dificuldades para passar pela verificação.

O destino dos dados após a verificação

Especialistas em direito digital também alertam para detalhes escondidos nos termos de uso das plataformas.

A advogada Heidi Howard Tandy aponta que muitas empresas deixam claro nesses documentos que podem entregar os dados às autoridades caso recebam solicitações oficiais.

Além disso, promessas de retenção de dados nem sempre significam que as informações serão realmente apagadas após determinado prazo.

Em alguns casos, registros utilizados em processos de verificação podem ser armazenados por até três anos ou mais.

Quando as plataformas sabem ainda mais sobre você

Outro ponto sensível envolve o poder das grandes empresas de tecnologia.

Plataformas digitais já utilizam o comportamento dos usuários para segmentar publicidade. Se essas empresas também tiverem acesso à idade exata de cada pessoa, especialistas temem que o nível de monitoramento aumente ainda mais.

Fiscalizar possíveis abusos exigiria um esforço contínuo de autoridades regulatórias — algo que ainda não está garantido em muitos países.

Controle parental como alternativa

Para alguns especialistas, existe uma forma mais equilibrada de proteger crianças online: o controle parental.

Em vez de exigir identificação de todos os adultos na internet, esse modelo coloca nas mãos dos pais ferramentas para acompanhar e limitar o acesso dos filhos a determinados conteúdos.

A ideia é simples: supervisionar diretamente o uso da internet por menores, em vez de criar um sistema de vigilância generalizada para toda a população.

Uma tecnologia mais segura — ainda teórica

Entre pesquisadores de segurança existe também uma proposta chamada Zero Knowledge Proof (ZKP).

Nesse modelo, uma entidade confiável verificaria os documentos do usuário apenas uma vez e emitiria uma credencial criptográfica. Depois disso, os sites receberiam apenas uma confirmação de idade — sem acesso aos documentos originais.

Apesar da elegância técnica, o sistema ainda enfrenta desafios práticos. Se a credencial criptográfica fosse roubada ou copiada, por exemplo, ela poderia ser usada por outra pessoa.

Países como Reino Unido e Austrália, que já adotaram sistemas de verificação de idade, acabaram optando por modelos baseados em coleta massiva de dados pessoais.

A situação no Brasil

No Brasil, o cenário ainda está em definição. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) já indicou que alguns serviços digitais populares devem passar por fiscalização mais rigorosa.

Essas plataformas provavelmente serão as primeiras a implementar sistemas de verificação de idade, embora os métodos e níveis de segurança possam variar bastante.

Existe também uma contradição curiosa nesse processo. A ANPD foi criada para fiscalizar o cumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados e evitar coleta excessiva de informações pessoais.

Agora, a mesma agência precisa supervisionar leis que exigem exatamente mais coleta de dados para funcionar.

A discussão revela um dilema moderno da internet: proteger crianças online é necessário, mas cada camada de proteção tecnológica costuma exigir mais dados pessoais. No fim das contas, a grande pergunta continua aberta — até que ponto estamos dispostos a trocar privacidade por segurança no mundo digital.