A emoção tomou conta de Fernanda Magalhães quando recebeu a notícia de que seu filho havia sido selecionado para representar o Brasil na Olimpíada Internacional de Cibersegurança (ICO) 2026. Embora não domine termos técnicos ou conhecimentos avançados sobre segurança digital, ela reconhece o esforço que levou o jovem até esse momento.
“Ver um menino que passou tantas horas estudando sozinho dentro do quarto chegar tão longe por mérito próprio é algo difícil de explicar”, afirma.
O protagonista dessa história é Felipe Magalhães, de apenas 15 anos, morador de Campinas (SP). No final de junho, ele embarca para a Tunísia, onde participará da ICO 2026, uma das mais importantes competições internacionais voltadas para jovens talentos da cibersegurança.
O que é a Olimpíada Internacional de Cibersegurança?
Criada em 2025 pelo professor Tan Sun Teck, de Singapura, a International Cybersecurity Olympiad (ICO) segue o modelo das tradicionais olimpíadas científicas internacionais. O objetivo é incentivar o estudo da cibersegurança entre jovens de diferentes países e promover a colaboração entre futuros especialistas da área.
A competição reúne participantes de até 20 anos de idade para resolver desafios avançados envolvendo criptografia, análise forense digital, engenharia reversa e exploração de vulnerabilidades em sistemas computacionais.
A edição de 2026 será realizada nos dias 29 e 30 de junho, na cidade de Hammamet, na Tunísia. Durante os dois dias de prova, os competidores enfrentarão desafios práticos no formato conhecido como Capture The Flag (CTF), em que precisam identificar e enviar uma sequência específica de caracteres — chamada de “flag” — para comprovar que conseguiram resolver cada problema proposto.
Diferentemente de outras competições, a velocidade não é o principal fator de avaliação. O foco está na capacidade técnica e na resolução correta dos desafios.
Hacker e cibercriminoso não são a mesma coisa
A trajetória de Felipe também ajuda a esclarecer um equívoco comum: nem todo hacker é um criminoso digital.
O termo hacker refere-se a pessoas apaixonadas por tecnologia que estudam sistemas computacionais, identificam falhas e contribuem para melhorar a segurança digital. Já o cibercriminoso utiliza conhecimentos semelhantes para invadir sistemas, roubar informações ou aplicar golpes.
Atualmente, profissionais com habilidades de hacking ético estão entre os mais procurados pelo mercado. Eles atuam como especialistas em segurança ofensiva, pesquisadores, analistas de vulnerabilidades e até peritos forenses.
A paixão por Exploração Binária
Entre as diversas áreas da cibersegurança, Felipe escolheu uma das mais complexas: a Exploração Binária, conhecida no meio técnico como “Pwn”.
Essa modalidade consiste em identificar falhas em programas de computador e explorá-las para alterar ou controlar seu comportamento. O campo exige conhecimentos avançados sobre arquitetura de computadores, sistemas operacionais, memória e programação.
Apesar da complexidade, Felipe começou a estudar a área há menos de dois anos.
De hobby a objetivo profissional
O interesse pela cibersegurança surgiu da mesma forma que para muitos jovens da sua geração: através da internet.
Documentários, vídeos no YouTube e filmes sobre hackers despertaram sua curiosidade. O que inicialmente era apenas um passatempo logo se transformou em uma rotina intensa de aprendizado.
“Era algo que eu fazia por curiosidade. Aos poucos fui me aprofundando e percebendo que realmente gostava da área”, conta.
Para desenvolver suas habilidades, Felipe passou a utilizar plataformas reconhecidas internacionalmente, como Hack The Box e TryHackMe, ambientes virtuais onde profissionais e estudantes resolvem desafios reais de segurança da informação.
Seu desempenho o levou à conquista da certificação Desec Certified Penetration Tester (DCPT), considerada a primeira certificação de testes de invasão criada na América Latina.
Hoje, essa credencial é utilizada para validar conhecimentos técnicos de profissionais que atuam em testes de segurança ofensiva.
Desafios que marcaram sua evolução
Um dos momentos mais importantes de sua trajetória aconteceu recentemente ao resolver um desafio classificado como Hard na plataforma Hack The Box.
Felipe participou da disputa logo após o lançamento do exercício, período em que milhares de especialistas tentam solucionar o problema para conquistar posições no ranking mundial.
O que mais lhe trouxe satisfação não foi a colocação alcançada, mas a solução técnica desenvolvida para resolver o desafio.
Segundo ele, foi necessário utilizar uma técnica avançada chamada “House of Apple2”, aplicada em três etapas distintas de manipulação de memória.
“Foi um desafio que me deixou bastante satisfeito quando terminei, principalmente pelo script que consegui desenvolver”, relata.
O apoio da família faz a diferença
Embora não compreenda profundamente os conceitos técnicos estudados pelo filho, Fernanda acompanha de perto sua dedicação.
Ela descreve Felipe como um jovem organizado e disciplinado, que administra sozinho sua rotina de estudos.
“Grande parte do que ele conquistou veio de horas e horas de estudo independente, disciplina e paixão pelo que faz”, afirma.
Segundo a mãe, o filho sempre demonstrou grande curiosidade e autonomia. Não houve um mentor específico ou alguém que o direcionasse para a área.
“Ele foi o protagonista da própria história e descobriu sozinho sua vocação.”
Para Fernanda, seu papel sempre foi oferecer apoio emocional e incentivo.
“Talvez eu não consiga ajudá-lo com a parte técnica, mas sempre procurei mostrar que tudo o que estivesse relacionado aos estudos, à profissão e ao futuro dele teria meu apoio.”
Um convite que mudou tudo
A oportunidade de integrar a equipe brasileira surgiu de uma forma bastante comum para a comunidade de tecnologia: através de um servidor no Discord.
Felipe recebeu uma mensagem destinada a jovens entre 13 e 19 anos com experiência em cibersegurança. Outros membros da comunidade o indicaram, destacando suas habilidades e projetos.
Após passar por avaliações e conversar com os responsáveis pela delegação brasileira, foi oficialmente selecionado para representar o país.
Apesar da conquista, ele admite sentir a responsabilidade do momento.
“É uma responsabilidade muito grande.”
Para ajudá-lo a lidar com a pressão, Fernanda reforça diariamente que o mais importante não é a classificação final.
“Mais importante do que qualquer colocação é voltar para casa orgulhoso do próprio caminho.”
Um sonho que inspira
Felipe costuma brincar que, quando alcançar sucesso profissional na área de tecnologia, cuidará da mãe. Fernanda sorri ao ouvir a promessa, mas enxerga nela o mesmo garoto que acreditou no próprio potencial muito antes dos reconhecimentos e conquistas.
Antes da certificação, antes do convite pelo Discord e antes da viagem para a Tunísia, havia apenas um adolescente estudando sozinho, motivado pela curiosidade e pela vontade de aprender.
Para Fernanda, essa é a principal lição da história.
“Nem sempre conseguimos oferecer tudo o que nossos filhos desejam, mas podemos acreditar neles, incentivar seus sonhos e caminhar ao lado deles. Muitas vezes, o que uma criança ou adolescente precisa não é de alguém apontando o caminho, mas de alguém dizendo: ‘Eu acredito em você’.”
Ela conclui lembrando que apoiar não significa controlar.
“Apoiar é estar presente enquanto eles transformam seus sonhos em realidade.”
Como ajudar
A viagem da delegação brasileira para a Tunísia começa em 27 de junho. Quem desejar contribuir com os custos da participação de Felipe na competição pode apoiar a campanha de arrecadação criada pela família por meio da plataforma Vakinha.