A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta utilizada por empresas para automatizar tarefas, analisar informações ou criar conteúdo. Grupos criminosos também estão incorporando a tecnologia às suas operações e encontrando novas formas de utilizá-la para identificar vítimas, encontrar vulnerabilidades e acelerar ataques contra organizações.
No Brasil, esse movimento começa a ganhar contornos mais preocupantes. Criminosos passaram a utilizar ferramentas de inteligência artificial para analisar empresas, escolher possíveis alvos e auxiliar na identificação de caminhos que podem levar a uma invasão. O cenário foi destacado durante discussões recentes sobre segurança digital e mostra como a IA pode reduzir a barreira técnica para grupos menores que pretendem realizar ataques.
A preocupação não está necessariamente no surgimento de um novo tipo de malware. O principal problema é a possibilidade de a inteligência artificial tornar etapas que antes exigiam conhecimento especializado mais rápidas e acessíveis.
IA ajuda criminosos a encontrar vítimas
Uma operação de ataque normalmente envolve diversas etapas antes mesmo de um invasor conseguir acesso a uma empresa.
É necessário descobrir quais sistemas estão expostos à internet, identificar tecnologias utilizadas pela organização, procurar vulnerabilidades conhecidas, encontrar funcionários que possam ser enganados e determinar quais informações podem ter valor para uma extorsão.
Tradicionalmente, esse trabalho poderia exigir equipes especializadas e bastante tempo.
Com ferramentas de IA, parte dessas tarefas pode ser automatizada.
Modelos capazes de analisar grandes volumes de informações podem ajudar criminosos a organizar dados disponíveis publicamente sobre uma empresa, identificar tecnologias utilizadas em sua infraestrutura e apontar possíveis pontos de interesse.
Isso não significa que a inteligência artificial consiga invadir qualquer organização automaticamente. A tecnologia, porém, pode funcionar como um multiplicador de capacidade, permitindo que uma equipe pequena faça em menos tempo um trabalho que anteriormente exigiria mais profissionais.
Criminosos pequenos também conseguem usar IA
Um dos aspectos mais relevantes desse cenário é que a utilização de inteligência artificial não está restrita às grandes organizações criminosas.
Segundo relatos apresentados durante o evento de segurança cibernética Mind The Sec, um grupo pequeno e pouco estruturado já estaria utilizando IA em diferentes etapas de suas operações.
Esse tipo de situação muda uma característica tradicional do mercado de ataques cibernéticos.
Durante anos, operações mais sofisticadas dependiam de especialistas capazes de identificar vulnerabilidades, desenvolver ferramentas próprias e conduzir ataques complexos. Agora, parte desse conhecimento pode ser complementada por sistemas de inteligência artificial.
Na prática, isso pode reduzir o conhecimento técnico necessário para determinadas etapas da operação.
A IA pode ajudar, por exemplo, a interpretar mensagens de erro, explicar códigos, pesquisar tecnologias utilizadas por uma empresa e sugerir caminhos para investigar uma determinada infraestrutura.
O criminoso continua precisando executar o ataque, mas passa a contar com uma espécie de assistente automatizado.
Engenharia social fica mais convincente
A inteligência artificial também pode ser utilizada fora da parte puramente técnica.
Um dos maiores riscos está na engenharia social, técnica que procura convencer uma pessoa a realizar determinada ação.
Um criminoso pode utilizar IA generativa para escrever mensagens falsas mais convincentes, adaptar a linguagem ao perfil da vítima e produzir comunicações com menos erros de português.
Esse fator é particularmente importante em ataques contra empresas brasileiras.
No passado, mensagens fraudulentas escritas por criminosos estrangeiros frequentemente apresentavam erros de tradução ou construções pouco naturais. Esses sinais podiam ajudar funcionários a identificar uma tentativa de golpe.
Com ferramentas capazes de produzir textos em português com maior naturalidade, essa barreira diminui.
Relatórios recentes da CrowdStrike apontaram crescimento de 89% nos ataques cibernéticos viabilizados ou acelerados por IA no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. A empresa também relatou que criminosos utilizam a tecnologia para acelerar operações técnicas, identificar vulnerabilidades e aprimorar abordagens utilizadas contra funcionários.
IA também pode ajudar na escolha de funcionários
Outro ponto de atenção é a possibilidade de utilizar inteligência artificial para analisar informações públicas sobre trabalhadores.
Redes profissionais, páginas corporativas, redes sociais e documentos disponíveis na internet podem revelar quais pessoas ocupam determinados cargos dentro de uma organização.
Para um criminoso, descobrir quem trabalha no setor financeiro, quem administra sistemas de TI ou quem possui privilégios administrativos pode ser tão importante quanto encontrar uma vulnerabilidade técnica.
A IA pode facilitar a organização dessas informações.
Em vez de analisar manualmente dezenas de páginas, um atacante pode utilizar ferramentas automatizadas para identificar nomes, funções, contatos e relações entre funcionários.
Com essas informações, uma tentativa de fraude pode ser personalizada.
Uma mensagem direcionada a um funcionário específico tende a ser diferente de um spam enviado para milhares de pessoas aleatoriamente. O criminoso pode utilizar informações sobre a empresa e sobre a função da vítima para criar uma história mais plausível.
O Brasil entra no radar dos grupos de ransomware
O avanço da inteligência artificial acontece ao mesmo tempo em que o Brasil registra aumento na atividade de grupos especializados em ransomware.
Nesse tipo de ataque, criminosos invadem uma organização, roubam informações e podem bloquear sistemas ou criptografar arquivos. Posteriormente, exigem pagamento, normalmente em criptomoedas, para tentar obter dinheiro em troca da recuperação do acesso ou da promessa de não publicar os dados roubados.
Dados citados pela Folha a partir do levantamento da Ransomware.live apontaram o Brasil como o terceiro país com mais registros de ataques de ransomware em junho de 2026, com 23 casos. No acumulado do ano até aquele momento, eram 123 ataques, colocando o país na quinta posição do levantamento.
Os números não representam necessariamente todos os ataques ocorridos, já que dependem de casos identificados e divulgados publicamente.
Ainda assim, o crescimento observado ajuda a explicar por que empresas brasileiras estão recebendo mais atenção de grupos criminosos.
IA não substitui completamente os hackers
Apesar do avanço dessas ferramentas, é importante evitar a ideia de que criminosos simplesmente apertam um botão e uma inteligência artificial realiza uma invasão completa.
Ataques reais continuam dependendo de infraestrutura, credenciais, vulnerabilidades, acesso inicial e capacidade operacional.
A IA funciona principalmente como uma ferramenta que pode acelerar determinadas etapas.
Um invasor pode utilizá-la para analisar informações, escrever código, interpretar resultados, adaptar mensagens ou automatizar tarefas repetitivas. Isso reduz o tempo necessário para algumas atividades e pode aumentar a escala das operações.
O problema, portanto, não é apenas a existência de uma IA capaz de executar ataques de maneira autônoma. O risco está na combinação entre ferramentas de IA e técnicas tradicionais de cibercrime.
Pequenos grupos podem operar em escala maior
Essa combinação também pode alterar o perfil dos criminosos.
Uma pequena equipe que anteriormente conseguiria atacar apenas algumas empresas pode passar a pesquisar dezenas ou centenas de organizações em menos tempo.
A inteligência artificial pode ajudar a filtrar possíveis vítimas e concentrar os esforços nos alvos considerados mais interessantes.
Esse modelo se aproxima de uma lógica industrial.
Em vez de escolher manualmente cada empresa, criminosos podem automatizar a coleta de informações, identificar características específicas e criar uma lista de potenciais vítimas.
Depois, operadores humanos podem concentrar seus esforços nos alvos selecionados.
Quanto mais etapas forem automatizadas, maior pode ser a escala da operação.
Empresas precisam rever a proteção contra ataques
O avanço da IA utilizada por criminosos também muda as prioridades das equipes de segurança.
Não basta apenas instalar antivírus e manter um firewall ativo. Organizações precisam controlar cuidadosamente suas credenciais, atualizar sistemas, reduzir serviços expostos desnecessariamente à internet e monitorar atividades incomuns.
A autenticação multifator também ganha importância, principalmente para contas que permitem acesso a sistemas críticos.
Outra medida fundamental é limitar os privilégios de cada funcionário. Se uma conta for comprometida, o invasor não deveria conseguir acessar automaticamente todos os sistemas da organização.
Treinamentos contra engenharia social também precisam acompanhar a evolução das ameaças.
Funcionários devem ser preparados para identificar mensagens, ligações e solicitações incomuns, mesmo quando o conteúdo estiver bem escrito e parecer personalizado.
Ataques contra o Brasil podem ficar mais sofisticados
A utilização de inteligência artificial não significa que todas as empresas brasileiras serão atacadas por sistemas autônomos. O que muda é a capacidade dos criminosos de automatizar partes de suas operações.
O Brasil já aparece entre os países atingidos por campanhas de ransomware e outras modalidades de crime digital. A utilização de IA pode tornar essas operações mais rápidas e diminuir algumas das dificuldades técnicas enfrentadas por grupos menores.
Para as empresas, isso significa que a segurança precisa acompanhar não apenas a evolução dos malwares, mas também a forma como os criminosos encontram suas vítimas.
A defesa passa por uma combinação de tecnologia, controle de acesso, monitoramento, atualização de sistemas e treinamento de funcionários.
A inteligência artificial está sendo incorporada aos dois lados da disputa. Enquanto empresas utilizam a tecnologia para detectar ameaças e responder a incidentes, criminosos também encontram maneiras de empregá-la para pesquisar organizações, criar abordagens mais convincentes e acelerar ataques.
O resultado é um cenário no qual a velocidade passa a ser um dos principais desafios da segurança cibernética. Uma operação que antes poderia exigir dias de pesquisa e trabalho especializado pode ter partes significativas automatizadas por ferramentas de IA.
Por isso, o crescimento dessas tecnologias representa não apenas uma nova ferramenta para os criminosos, mas uma mudança na dinâmica dos ataques digitais. Para as empresas brasileiras, acompanhar essa transformação será cada vez mais importante para reduzir o risco de uma invasão e limitar os danos caso ela aconteça.