Hackers invadem sites do governo brasileiro para espalhar golpe de apostas online

Uma rede de cibercriminosos de língua chinesa está usando servidores de órgãos públicos brasileiros para promover um esquema de apostas online e enganar usuários na internet. A estratégia chama atenção porque os criminosos aproveitam a credibilidade dos endereços terminados em “.gov.br” para melhorar a posição de páginas fraudulentas nos resultados do Google.

Segundo uma investigação da Check Point Research, o grupo foi identificado como Gambling Goblin e estaria relacionado ao coletivo asiático conhecido como Earth Berberoka, que já foi associado a ataques envolvendo jogos de azar. A campanha é acompanhada pelos pesquisadores desde 2025, mas o tipo de invasão utilizado pelos criminosos já havia sido identificado no Brasil anteriormente.

Como funciona o golpe

Na prática, os criminosos não precisam necessariamente transformar o site do governo em uma página completamente falsa. O objetivo é aproveitar servidores legítimos para criar uma espécie de ponte entre os mecanismos de busca e os sites controlados pela quadrilha.

O invasor consegue colocar conteúdo malicioso ou alterar determinadas configurações do servidor comprometido. Com isso, uma página que possui um endereço oficial pode aparecer nos resultados de pesquisa e, quando o usuário acessa o link, ser direcionado para outro endereço controlado pelos criminosos.

A técnica é especialmente perigosa porque o domínio “.gov.br” transmite uma sensação de segurança. Muitas pessoas entendem que um endereço governamental é necessariamente confiável, e os criminosos exploram justamente essa percepção.

De acordo com a investigação, entre os alvos estão servidores ligados a um ministério, uma agência pública federal, uma assembleia legislativa, tribunais de contas estaduais e diversas prefeituras. O problema, portanto, não está limitado a uma única instituição.

Páginas falsas imitam lojas conhecidas

Depois de conseguir espaço dentro dos servidores comprometidos, o grupo utiliza a estrutura para direcionar visitantes para páginas fraudulentas.

Os pesquisadores encontraram sites que imitam serviços conhecidos, incluindo versões falsas de lojas e plataformas como Google Play, Microsoft Store e Amazon. As páginas podem apresentar logotipos, avaliações e comentários falsos para tentar convencer a vítima de que está diante de um serviço legítimo.

O principal objetivo identificado na campanha é promover apostas esportivas e jogos de azar.

O problema é que a mesma estrutura poderia ser modificada posteriormente para outros tipos de fraude. Uma página que hoje anuncia apostas pode, por exemplo, ser alterada para tentar convencer o visitante a baixar um aplicativo malicioso, instalar um programa espião ou fornecer informações pessoais.

Por isso, o ataque representa um risco maior do que simplesmente encontrar uma propaganda de apostas em um site comprometido. A infraestrutura pode ser reutilizada para diferentes golpes digitais.

Governo diz que não houve vazamento de dados

Apesar da invasão de servidores, o governo brasileiro afirmou que não recebeu notificações relacionadas a vazamentos de dados de cidadãos ou servidores nos episódios descritos pela investigação.

O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI/PR) informou que o Centro de Prevenção, Tratamento e Resposta a Incidentes Cibernéticos de Governo (CTIR Gov) não identificou notificações de comprometimento ou vazamento de informações pessoais relacionadas aos casos apresentados no relatório.

Isso é importante porque uma invasão de servidor não significa automaticamente que os dados armazenados naquele ambiente foram roubados. Dependendo do tipo de acesso obtido pelo criminoso, o objetivo pode ser simplesmente utilizar o servidor para hospedar arquivos, manipular páginas ou redirecionar visitantes.

Problema já era conhecido no Brasil

O caso também mostra que a técnica não é exatamente nova.

Segundo Cristine Hoepers, gerente-geral do CERT.br, os primeiros casos envolvendo sites comprometidos para manipulação de resultados de busca foram identificados ainda em dezembro de 2023.

A prática é conhecida como SEO malicioso, ou “Malware SEO”. Basicamente, os criminosos comprometem sites legítimos e utilizam a reputação desses domínios para aumentar a visibilidade de páginas fraudulentas nos mecanismos de busca.

O CERT.br mantém registros de ocorrências desse tipo e realiza notificações para os responsáveis pelos ambientes afetados, com orientações para identificar o problema e recuperar os sistemas.

Brasil virou um dos principais alvos

Os pesquisadores apontam o Brasil como o principal mercado da campanha identificada atualmente. O grupo também possui páginas adaptadas para outros idiomas, como inglês, espanhol e vietnamita.

Outro recurso utilizado pelos criminosos é a criação frequente de novos endereços. Dessa forma, quando um domínio utilizado no golpe é bloqueado ou removido, outro pode assumir seu lugar.

A investigação também encontrou indícios de utilização de inteligência artificial para automatizar determinadas tarefas da operação, incluindo rotinas internas e criação de códigos usados na infraestrutura criminosa.

O que os órgãos públicos precisam fazer

Para reduzir o risco de novos ataques, especialistas recomendam que as equipes responsáveis pelos sistemas façam auditorias nos servidores, procurem arquivos e códigos suspeitos, eliminem componentes maliciosos e atualizem senhas e chaves de acesso.

Também é fundamental manter sistemas atualizados e realizar monitoramento contínuo. Um servidor público comprometido pode ser explorado não apenas contra o próprio órgão, mas também contra milhares de pessoas que confiam naquele endereço.

O caso serve como um alerta importante: um site com domínio oficial não está automaticamente livre de problemas de segurança. O endereço pode ser legítimo, mas sua infraestrutura pode ter sido comprometida.

Por isso, usuários também devem ficar atentos a links que aparecem em pesquisas, mesmo quando parecem estar associados a organizações conhecidas. Antes de fornecer informações, baixar aplicativos ou realizar pagamentos, é importante verificar o endereço acessado e confirmar se a página realmente pertence ao serviço procurado.

A campanha do Gambling Goblin mostra como os criminosos estão combinando invasão de servidores, manipulação de mecanismos de busca, páginas falsas e automação para alcançar novas vítimas. Mais do que um golpe envolvendo apostas, o episódio demonstra como a reputação de sites legítimos pode ser transformada em uma ferramenta para aumentar a eficiência de ataques digitais.