Brasil registra quase 3 tentativas de golpe por segundo no primeiro semestre de 2026

O Brasil registrou um aumento significativo nas tentativas de fraude de identidade durante o primeiro semestre de 2026. Dados da Serasa Experian apontam que 2,86 milhões de tentativas de fraude foram identificadas e bloqueadas entre janeiro e junho, um crescimento de 32,9% em comparação com o mesmo período do ano anterior. O volume representa uma ocorrência de alto risco a cada 5,5 segundos.

Quando o número é convertido para uma média por segundo, o resultado ajuda a dimensionar o tamanho do problema: são quase três tentativas de fraude por segundo. É importante destacar, porém, que o levantamento contabiliza tentativas identificadas durante processos de validação de identidade, como abertura de contas, cadastros e contratação de serviços. Portanto, o número não representa necessariamente golpes que chegaram a ser concluídos contra consumidores.

Além do crescimento no número de ocorrências, a Serasa estima que as tentativas bloqueadas poderiam ter provocado aproximadamente R$ 3,77 bilhões em prejuízos. O cenário mostra como criminosos estão explorando cada vez mais informações pessoais e tecnologias digitais para tentar ultrapassar os mecanismos de segurança utilizados por empresas.

Fraudes estão cada vez mais sofisticadas

Um dos principais destaques do levantamento é o surgimento de uma modalidade conhecida como “golpe do sósia”. Nesse tipo de fraude, o criminoso não começa procurando os dados de uma vítima específica. A estratégia funciona de maneira diferente.

Primeiro, o fraudador utiliza ferramentas de comparação facial para procurar pessoas que tenham características físicas semelhantes às suas. Depois, tenta encontrar uma identidade que possa ser utilizada para passar por processos de reconhecimento facial.

Segundo a Serasa Experian, os chamados motores de comparação facial podem localizar pessoas com elevado grau de similaridade física. Em alguns casos, a tecnologia consegue encontrar identidades com até 99% de semelhança facial. A partir dessas informações, o criminoso pode selecionar um possível alvo e tentar utilizar seus dados em processos de validação.

A técnica representa uma mudança importante na forma como determinadas fraudes de identidade são realizadas. Em golpes tradicionais, o criminoso geralmente começa com informações de uma vítima, como nome, CPF, documentos ou dados bancários, e tenta descobrir maneiras de utilizá-las.

No golpe do sósia, o caminho pode ser inverso: o criminoso começa pelo próprio rosto e procura uma identidade que tenha maior possibilidade de passar por um sistema automatizado de reconhecimento facial.

Reconhecimento facial sozinho pode não ser suficiente

O crescimento dessa modalidade também levanta questionamentos sobre a utilização da biometria facial como único mecanismo de segurança.

O reconhecimento facial é utilizado por bancos, fintechs, operadoras de telefonia, empresas de crédito e diferentes plataformas digitais para confirmar se uma pessoa é realmente quem afirma ser. Apesar de ser uma ferramenta importante, a Serasa Experian recomenda que ela seja combinada com outras formas de verificação.

Entre os mecanismos que podem ser utilizados estão a análise de documentos, prova de vida, conferência de dados cadastrais, informações relacionadas ao dispositivo utilizado e análise do comportamento durante a operação.

A ideia é criar várias camadas de proteção. Dessa maneira, mesmo que um criminoso consiga superar uma etapa, outras verificações ainda podem identificar inconsistências.

Por exemplo, uma pessoa pode apresentar um rosto muito semelhante ao de determinado cliente, mas utilizar um aparelho desconhecido, apresentar informações cadastrais incompatíveis ou demonstrar um comportamento diferente daquele normalmente observado. A combinação desses sinais aumenta a capacidade de identificar uma tentativa suspeita.

Setor financeiro continua entre os principais alvos

As tentativas de fraude de identidade não estão concentradas apenas nos bancos. O problema também aparece em serviços de telefonia, varejo, plataformas digitais e outras atividades que dependem da confirmação da identidade do consumidor.

Um levantamento baseado no Mapa da Fraude da Serasa Experian mostra que Meios de Pagamento, Bancos e Cartões e Financeiras concentraram juntos mais de 60% das tentativas identificadas no primeiro semestre. O varejo, por outro lado, apresentou uma das maiores taxas de crescimento proporcional, com alta de 120,7% em relação ao mesmo período de 2025.

Esse cenário está diretamente relacionado à digitalização de serviços. Cada vez mais operações que antes exigiam a presença física do consumidor podem ser realizadas pelo celular ou computador.

Abrir uma conta, solicitar crédito, contratar uma linha telefônica, adquirir um produto ou acessar determinados serviços pode exigir apenas alguns documentos, uma selfie e outras informações pessoais. Essa facilidade melhora a experiência do usuário, mas também cria novas oportunidades para criminosos.

Vazamento de dados aumenta o risco

Outro fator importante é a quantidade de informações pessoais que circula na internet. Documentos, fotografias, números de telefone, endereços e outros dados podem ser expostos em vazamentos ou obtidos por meio de golpes de engenharia social.

Fotos publicadas nas redes sociais também podem ser utilizadas indevidamente. No caso do golpe do sósia, por exemplo, imagens podem servir como matéria-prima para sistemas de comparação facial.

Por isso, especialistas recomendam evitar a publicação de fotografias de documentos ou selfies segurando documentos. Mesmo quando parte das informações está escondida, a imagem ainda pode fornecer elementos úteis para criminosos.

Como o consumidor pode se proteger

A proteção contra fraudes de identidade começa com cuidados básicos no ambiente digital.

Uma das principais recomendações é fornecer documentos, selfies e dados biométricos somente em sites e aplicativos oficiais. Pedidos inesperados de reconhecimento facial recebidos por mensagens, e-mails ou códigos QR devem ser tratados com desconfiança.

Também é importante evitar o compartilhamento de documentos em redes sociais e aplicativos de mensagens, além de utilizar senhas fortes e autenticação em dois fatores sempre que disponível.

Outra medida importante é manter o celular e os aplicativos atualizados. Atualizações de segurança podem corrigir vulnerabilidades que seriam utilizadas por criminosos para obter acesso ao dispositivo ou às contas do usuário.

Empresas precisam adotar mais de uma camada de segurança

Para as empresas, o crescimento das fraudes mostra que uma única tecnologia não é suficiente para garantir a identidade de um usuário.

Soluções de biometria facial podem continuar sendo importantes, mas precisam fazer parte de uma estratégia mais ampla. A combinação de reconhecimento facial, prova de vida, validação documental, análise cadastral, identificação do dispositivo e monitoramento de comportamento pode dificultar significativamente a ação de fraudadores.

Os números registrados no primeiro semestre de 2026 mostram que a fraude de identidade continua acompanhando a evolução tecnológica. Ao mesmo tempo em que novas ferramentas tornam processos digitais mais rápidos e seguros, criminosos também encontram maneiras de explorar essas tecnologias.

O chamado golpe do sósia é um exemplo dessa disputa. Uma ferramenta desenvolvida para ajudar a confirmar a identidade de uma pessoa pode ser explorada para encontrar alguém com aparência semelhante e tentar enganar o próprio sistema.

Com 2,86 milhões de tentativas de fraude de identidade bloqueadas em apenas seis meses, o cenário reforça que segurança digital precisa ser tratada como um processo contínuo. Para consumidores, isso significa cuidar melhor das informações pessoais. Para empresas, significa investir em diferentes camadas de autenticação capazes de identificar comportamentos suspeitos antes que uma tentativa de fraude seja concluída.