Uso de tags de rastreamento para perseguir mulheres cresce mais de 15% em SP

Dispositivos criados originalmente para localizar objetos perdidos, como chaves e malas, estão sendo distorcidos e transformados em ferramentas de perseguição (stalking) contra mulheres na capital paulista. Dados da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) revelam que os registros desse tipo de crime subiram mais de 15% no primeiro trimestre deste ano, saltando de 90 ocorrências no ano passado para 104 nos primeiros três meses deste ano.

O perigo silencioso do monitoramento em tempo real

Por serem extremamente pequenos, esses localizadores podem ser facilmente ocultados em carros, roupas ou bolsas, transmitindo a localização da vítima em tempo real.

De acordo com uma reportagem da Folha de S. Paulo, uma pedagoga de 46 anos descobriu que estava sendo vigiada após receber alertas em seu próprio celular de que uma tag desconhecida a acompanhava há horas. O dispositivo em questão era uma AirTag, da Apple, que o agressor havia escondido dentro do tênis do filho da vítima, de apenas 6 anos.

A impunidade que assusta: Mesmo após encontrar o aparelho, registrar o boletim de ocorrência e solicitar uma medida protetiva de urgência, a pedagoga teve o pedido negado e o caso acabou arquivado pela Justiça.

De “paranoia” à realidade tecnológica

A delegada titular da 1ª DDM, Cristine Nascimento Guedes Costa, pontua que a tecnologia transformou o que antes era rotulado como “paranoia” em uma ameaça real e sofisticada.

  • Táticas comuns: Agressores costumam colocar os dispositivos em mochilas de crianças ou em locais de difícil acesso em veículos, como o escapamento, exigindo buscas minuciosas por parte dos investigadores.

Um problema global e de várias marcas

O uso desvirtuado dessas tags não é novidade e nem exclusividade de uma única empresa:

  • Histórico: Uma investigação da Vice em 2022 já apontava que, de 150 casos envolvendo rastreadores, 50 eram de mulheres perseguidas.
  • Dispositivos: Embora as AirTags da Apple frequentemente estampem as denúncias — inclusive gerando processos coletivos que acusam a empresa de não criar travas de segurança suficientes —, o mercado está repleto de concorrentes como Samsung, Motorola e modelos genéricos de baixo custo vendidos em marketplaces.

As fabricantes reforçam constantemente que o ecossistema dessas tags foi desenhado estritamente para segurança de bens materiais, e nunca para rastrear pessoas ou animais. Quando bem utilizadas, inclusive, ajudam a recuperar milhares de reais em bens roubados; contudo, nas mãos erradas, tornaram-se uma extensão física da violência doméstica e psicológica.