O Dia da Internet Segura, celebrado em 10 de fevereiro, chega com um alerta pesado no Brasil. Dados da SaferNet mostram um aumento de 224,9% nas denúncias de misoginia, violência e discriminação contra mulheres em apenas um ano. E o cenário piora com um novo tipo de ameaça entrando no radar.
Pela primeira vez, a organização registrou casos de vítimas de imagens íntimas falsas criadas por inteligência artificial. Os pedidos de ajuda ao Helpline da SaferNet por vazamento de fotos e vídeos íntimos sem consentimento cresceram 115% entre 2024 e 2025. Segundo Thiago Tavares, presidente da entidade, boa parte desse avanço está ligada ao uso criminoso de IA generativa.
“Recebemos os primeiros relatos de deepfakes pornográficos. São imagens falsas, mas extremamente realistas, criadas sem qualquer autorização”, explica.
IA vira ferramenta para crimes digitais
Esse movimento acompanha uma tendência global. O uso de inteligência artificial para fins criminosos vem crescendo e já preocupa especialistas em segurança digital. Um relatório parcial da pesquisa da SaferNet sobre o tema, financiada pelo fundo SafeOnline — administrado pelo Unicef —, será apresentado em um evento em São Paulo.
Além da misoginia, outros crimes de ódio também dispararam no ambiente online. As denúncias de apologia a crimes contra a vida subiram 75,4%, enquanto conteúdos ligados ao neonazismo cresceram 64,7%. O racismo teve alta de 58,5% e a LGBTfobia avançou 24,3% no último ano.
Exploração sexual infantil volta a crescer
Outro dado alarmante é o retorno do crescimento das denúncias envolvendo imagens de abuso e exploração sexual infantil na internet. Após dois anos de queda, os registros subiram 19,3%, passando de 52.999 em 2024 para 63.214 em 2025. É o segundo maior número já registrado pela SaferNet, atrás apenas do pico de 2022.
A organização aponta que o uso de IA para criar, alterar ou reciclar esse tipo de material tem contribuído diretamente para o aumento. Ao todo, a SaferNet recebeu 87.689 denúncias únicas de crimes digitais em 2025, uma alta de 28,4% em relação ao ano anterior.
ECA Digital começa a valer em março
Diante desse cenário, o Brasil se prepara para uma mudança importante na legislação. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, conhecido como ECA Digital, entra em vigor em março e impõe regras mais rígidas para plataformas digitais, redes sociais, aplicativos e jogos.
A nova lei atualiza o ECA original, criado em 1990, quando a internet ainda não fazia parte da rotina da população. Agora, o foco é enfrentar riscos reais do ambiente digital. Entre os principais pontos estão a verificação de idade mais rigorosa — não basta mais marcar que tem mais de 18 anos — e a obrigação das plataformas de proteger ativamente crianças e adolescentes.
As empresas também passam a ser responsáveis por monitorar e remover conteúdos nocivos sem depender apenas de denúncias. A publicidade direcionada a menores fica proibida, e perfis de usuários com menos de 16 anos precisarão estar vinculados à conta de um adulto responsável.
A fiscalização ficará a cargo da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que poderá aplicar multas de até R$ 50 milhões. Em casos extremos, plataformas podem ser suspensas ou até proibidas de operar no país por decisão judicial.
Como proteger crianças e adolescentes no uso de IA
No Dia da Internet Segura, especialistas reforçam que a Geração Alfa — nascidos entre 2010 e 2025 — já usa ferramentas de IA como chatbots e assistentes virtuais com naturalidade. O desafio não é proibir, mas ensinar o uso consciente.
Segundo Fabiano Tricarico, diretor geral de produtos de consumo da Kaspersky para as Américas, a conscientização é o primeiro passo. Assistentes digitais não são amigos e podem errar, distorcer informações ou apresentar vieses. Crianças precisam aprender a conferir respostas em mais de uma fonte e nunca compartilhar dados pessoais com sistemas de IA.
Outras medidas importantes incluem ativar filtros de segurança, instalar aplicativos apenas de lojas oficiais, revisar permissões concedidas aos apps e usar ferramentas de controle parental. Tricarico também recomenda conversas simples no dia a dia, como perguntar o que a criança pesquisou na IA e se a resposta fazia sentido.
Essa troca constante ajuda a transformar pais e responsáveis em guias confiáveis em um mundo digital cada vez mais complexo — e inevitável.