Postar foto dos filhos ou deixar que crianças e adolescentes tenham perfis próprios nas redes parece algo normal. Todo mundo faz. Só que o ambiente digital virou um território altamente monitorado, movido a dados e atenção. E aí entra a pergunta que muita gente evita: isso é realmente necessário?
Quando se fala em risco para menores online, o pensamento vai direto para grooming e abuso sexual. Esses perigos são reais e graves. Mas não são os únicos — e talvez nem sejam os mais invisíveis.
Permanência digital: a internet não esquece
Existe um conceito que pouca gente considera: permanência digital.
Você posta uma foto. Dois amigos compartilham. Alguém faz download. Mesmo que você apague, aquela imagem pode continuar circulando, aparecendo em perfis de terceiros ou até em buscas do Google.
Para adultos, isso já é difícil de controlar. Para crianças e adolescentes, é praticamente impossível compreender o alcance. Ao permitir que publiquem livremente, existe a chance de que imagens e informações fiquem registradas para sempre — sem contexto, sem controle e sem possibilidade real de apagar o passado.
Não é só sobre predadores
A exposição online abre portas para:
– Manipulação de imagens por inteligência artificial
– Vazamentos de dados
– Chantagem
– Danos à reputação
– Impactos psicológicos
Um estudo de 2017 com alunos do 8º ao 12º ano mostrou aumento de 33% nos sintomas depressivos entre 2010 e 2015. Entre meninas da mesma faixa etária, a taxa de suicídio cresceu 65% no período. Especialistas associam o uso intenso de redes sociais a problemas de autoestima, distúrbios do sono e piora na saúde mental.
Filtros de aparência e padrões irreais podem amplificar inseguranças justamente numa fase em que o cérebro ainda está em desenvolvimento e a identidade está sendo construída.
O que alguns países estão fazendo
Governos começaram a reagir. A Austrália adotou restrições ao uso de redes sociais para menores de 16 anos após estudos indicarem que 96% das crianças entre 10 e 15 anos usam essas plataformas, e sete em cada dez já tiveram contato com conteúdo sensível. O mesmo relatório apontou que uma em cada sete relatou algum tipo de aliciamento online.
No Brasil, a restrição do uso de celulares em escolas trouxe resultados práticos: 41% dos alunos disseram que o cyberbullying diminuiu e 83% relataram maior concentração.
O que os pais podem fazer na prática
Algumas medidas simples ajudam:
– Manter perfis privados
– Estabelecer regras claras de uso
– Ensinar sobre seguidores e contatos confiáveis
– Fazer “faxina digital” regularmente
– Reduzir tempo de tela
– Evitar celular à mesa
– Reservar tempo offline em família
Pequenas decisões moldam hábitos. E hábitos moldam a relação com tecnologia.
Entendendo o lado mais sombrio
Para quem quer aprofundar o tema, a série Realidade Violada 3: Predadores Sexuais investiga como funcionam redes de produção e distribuição de material de abuso infantil, com relatos de sobreviventes, policiais e especialistas em segurança digital. O conteúdo está disponível gratuitamente no YouTube do TecMundo.
A internet não é vilã. Mas também não é um parque infantil neutro. Ela registra, replica e monetiza. E quando envolve crianças, cada clique merece ser pensado duas vezes.