Do combate a vírus à guerra contra drones: A nova missão de Mikko Hyppönen

Mikko Hyppönen, um dos nomes mais respeitados da cibersegurança mundial, costuma usar uma analogia curiosa para explicar sua área: o “Tetris da cibersegurança”. Durante uma palestra na Black Hat, ele destacou que, assim como no jogo, os acertos desaparecem rapidamente, enquanto os erros se acumulam. No mundo digital, isso significa que, quando tudo funciona bem, ninguém percebe — afinal, nada acontece.

Com mais de 35 anos de carreira, Hyppönen construiu sua reputação combatendo malware desde os primórdios da computação pessoal. No fim dos anos 1980, quando a internet ainda era limitada, ameaças digitais se espalhavam por disquetes e eram conhecidas apenas como “vírus” ou “cavalos de Troia”. Desde então, ele analisou milhares de ameaças e se tornou uma das vozes mais influentes do setor.

A evolução do malware

A trajetória de Hyppönen começou com curiosidade: ainda jovem, ele explorava jogos e sistemas por meio de engenharia reversa. Esse interesse o levou ao seu primeiro emprego na F-Secure, onde passou a atuar diretamente na análise de vírus.

Naquela época, muitos criadores de malware agiam por hobby ou desafio técnico. Um exemplo é o vírus Form.A, que se espalhava via disquetes e, em alguns casos, apenas exibia mensagens na tela. Já no ano 2000, o famoso ILOVEYOU marcou uma virada: infectou milhões de computadores ao se propagar por e-mail, simulando uma carta de amor.

Hoje, o cenário é completamente diferente. O malware deixou de ser uma brincadeira e se tornou ferramenta de crime e espionagem. Ataques como o WannaCry e o NotPetya mostraram o potencial destrutivo dessas ameaças em escala global.

Além disso, o setor de cibersegurança evoluiu e se profissionalizou, atingindo um valor de mercado bilionário. Sistemas modernos — como smartphones — se tornaram muito mais difíceis de invadir, elevando o custo de ataques a níveis acessíveis apenas para governos e grandes organizações.

Um novo inimigo: drones

Mesmo com os avanços na proteção digital, Hyppönen decidiu encarar um novo desafio. Em 2025, ele assumiu a posição de diretor de pesquisa na Sensofusion, empresa focada em sistemas de defesa contra drones.

A mudança foi motivada principalmente pela guerra na Ucrânia, onde drones têm desempenhado papel central nos combates. Vivendo próximo à fronteira entre Finlândia e Rússia, Hyppönen passou a enxergar essa ameaça como algo direto e urgente.

Segundo ele, a lógica de defesa contra drones tem semelhanças com a cibersegurança. Se antes era preciso identificar e bloquear malware por meio de “assinaturas”, agora o objetivo é detectar sinais de rádio usados para controlar drones. Ao mapear essas frequências, é possível não só identificar os dispositivos, mas também interferir em seu funcionamento.

Em alguns casos, explorar vulnerabilidades nesses sistemas pode ser ainda mais simples do que em softwares tradicionais. Uma falha pode ser suficiente para derrubar um drone instantaneamente.

O mesmo jogo, em outro campo

Apesar da mudança de área, Hyppönen afirma que a essência do trabalho continua a mesma: um jogo constante de gato e rato. À medida que novas defesas são criadas, adversários desenvolvem formas de contorná-las.

Outro ponto que permanece é a origem das ameaças. Ao longo da carreira, ele lidou com diversos ataques ligados à Rússia — algo que, segundo ele, continua sendo realidade, agora no contexto de drones.

Para Hyppönen, a transição da cibersegurança para a defesa contra drones não é uma ruptura, mas uma evolução natural. Se antes o foco era proteger sistemas digitais, agora o objetivo é proteger o mundo físico de ameaças cada vez mais tecnológicas.

No fim das contas, a missão continua a mesma: antecipar ataques, entender o inimigo e impedir que o pior aconteça — mesmo que ninguém perceba quando dá certo.