Computação quântica pode tornar senhas e criptografia atuais obsoletas

No futuro próximo, não existirão mais senhas realmente seguras nem segredos financeiros confiáveis do jeito que conhecemos hoje. A criptografia moderna, base da segurança digital atual, pode simplesmente deixar de funcionar. O motivo não é um novo tipo de vírus ou golpe, mas um avanço tecnológico poderoso: a computação quântica. O alerta vem de Marijus Briedis, CTO da NordVPN, em entrevista ao TecMundo.

A computação quântica se apoia em conceitos da mecânica quântica, como superposição e emaranhamento. Em vez de trabalhar apenas com bits tradicionais, que assumem os valores 0 ou 1, esses sistemas usam qubits, capazes de representar múltiplos estados ao mesmo tempo. Na prática, isso significa uma capacidade de processamento absurdamente maior. Segundo Briedis, certos problemas poderiam ser resolvidos milhares ou até milhões de vezes mais rápido. Nas mãos erradas, esse poder vira um risco real, conhecido como “ameaça quântica”.

Por que a criptografia atual está em risco

Grande parte da segurança digital hoje depende da chamada criptografia simétrica, modelo em que todas as partes envolvidas compartilham o mesmo segredo, como uma senha. Ela está presente em praticamente tudo: bancos, redes sociais, aplicativos e conexões web.

A proteção desse modelo está no tamanho do espaço de chaves, medido em bits. Quanto maior, mais difícil é quebrar o sistema por tentativa e erro. Um exemplo clássico é o AES-128, amplamente usado no mundo todo. Ele possui 2¹²⁸ combinações possíveis, um número tão grande que, mesmo com um computador testando um trilhão de chaves por segundo, levaria um tempo muito maior que a idade do universo para quebrar a criptografia por força bruta.

Hoje, isso é suficiente. Com computadores quânticos avançados, não necessariamente.

O impacto dos computadores quânticos na prática

Com algoritmos quânticos, como o algoritmo de Grover, o tempo necessário para quebrar uma chave simétrica cai drasticamente. Em um cenário teórico, um computador quântico extremamente poderoso poderia reduzir esse processo de bilhões de anos para algo em torno de algumas centenas de anos. Ainda parece distante, mas o problema real é outro: ataques modernos não dependem só de força bruta.

Cibercriminosos já usam dados vazados, padrões de comportamento e ataques direcionados para reduzir drasticamente o número de tentativas necessárias. Quando a computação quântica entrar nesse jogo, grupos hackers organizados e até estados-nação terão ferramentas muito mais perigosas à disposição.

Criptografia pós-quântica surge como resposta

A boa notícia é que a comunidade de segurança não está parada. A chamada criptografia pós-quântica já está em desenvolvimento e, em alguns setores, em uso. A ideia é simples: criar algoritmos que continuem seguros mesmo diante de computadores quânticos.

No campo da criptografia simétrica, a solução passa por aumentar o tamanho das chaves. O AES-128 tende a ser substituído pelo AES-256, enquanto funções de hash mais fortes ganham espaço. Isso torna os ataques inviáveis até mesmo para máquinas quânticas.

A maior mudança, porém, está na criptografia assimétrica. Algoritmos clássicos como RSA e ECC dependem de problemas matemáticos que computadores quânticos conseguem resolver com relativa facilidade. Por isso, eles devem ser substituídos por novos modelos baseados em estruturas matemáticas mais resistentes. Entre os principais nomes estão Kyber, Dilithium, Falcon e SPHINCS+.

Segundo Briedis, setores como o financeiro já começaram essa transição e estão avançando rápido.

A corrida contra o tempo já começou

Mesmo sem computadores quânticos plenamente operacionais hoje, o risco já é tratado como inevitável. O próprio NIST, órgão dos Estados Unidos responsável por padronizações tecnológicas, recomenda a migração para criptografia pós-quântica até 2030.

O alerta é ainda mais sério por causa de uma estratégia cada vez mais comum no cibercrime: “coletar agora, descriptografar depois”. Dados roubados hoje, mesmo que protegidos, podem ser quebrados no futuro quando a tecnologia permitir.

O maior risco ainda é humano

Para o CTO da NordVPN, o maior problema da cibersegurança não é apenas técnico, mas educacional. O excesso de confiança na tecnologia cria uma falsa sensação de proteção. Usuários compartilham dados sensíveis sem pensar nas consequências, especialmente em ferramentas de inteligência artificial.

Segundo ele, muitas plataformas deixam claro que tudo o que é enviado pode ser armazenado ou utilizado, mas pouca gente lê ou leva isso a sério. A recomendação é simples e direta: pensar antes de compartilhar.

Boas práticas continuam essenciais

Encerrando, Briedis reforça dicas que parecem básicas, mas seguem ignoradas. Separar dispositivos pessoais dos profissionais é uma delas. Equipamentos pessoais costumam ter menos camadas de segurança e se tornam portas de entrada para ataques maiores.

Ele também destaca a importância de monitorar vazamentos de dados, ajustar configurações de privacidade, trocar senhas e acompanhar alertas sobre uso indevido de informações. Mesmo após um vazamento, ainda há muito o que fazer para reduzir danos.

A tecnologia avança rápido. A segurança precisa correr no mesmo ritmo.