Apagão de internet no Irã reacende debate sobre bloqueios digitais e levanta alerta no Brasil

O Irã enfrenta mais de 84 horas de isolamento digital. Segundo a ONG Netblocks, o país está praticamente sem internet e sem comunicações telefônicas após cortes determinados pelo governo para conter a onda de protestos que tomou as ruas desde dezembro de 2025.

As manifestações começaram depois de uma nova queda do rial, a moeda nacional, que vem perdendo valor de forma acelerada e esmagando o poder de compra da população. A ONG Direitos Humanos no Irã afirma que milhares de pessoas já morreram e outras milhares foram presas desde o início dos atos.

O líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, acusa os manifestantes de agirem sob influência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a quem chama de patrocinador de “mercenários estrangeiros”. Trump, por sua vez, declarou que poderá agir “duramente” caso a repressão seja intensificada.

Sem acesso à internet convencional, muitos iranianos passaram a usar aplicativos que funcionam via Bluetooth e conexões alternativas como o Starlink, serviço de internet por satélite da SpaceX. O apagão, no entanto, levanta uma pergunta incômoda fora do Oriente Médio: isso poderia acontecer em países como o Brasil?

Um apagão de internet seria possível no Brasil?

Com 2026 marcado por eleições e por um ambiente político cada vez mais polarizado, a internet será o principal campo de disputa de narrativas. Em um cenário de protestos, desinformação e pressão institucional, surge a dúvida: o Brasil teria meios técnicos para bloquear a própria internet?

Em um artigo publicado em 2025, o especialista em tecnologia Thiago Ayub, colunista do TecMundo, alertou que a internet foi desenhada para resistir a falhas técnicas, mas não para resistir a ordens governamentais.

O ponto-chave é que toda a infraestrutura de acesso à internet no Brasil é regulada pela Anatel. Provedores, operadoras e grandes backbones estão registrados e operam sob regras claras impostas pelo órgão regulador.

Segundo Ayub, isso abre dois caminhos possíveis para um bloqueio em larga escala.

O primeiro é administrativo. A Anatel possui os contatos diretos dos centros de operação de todas as grandes empresas que fornecem internet no país. Hoje, essa lista já é usada para exigir o bloqueio de sites específicos. Em um cenário extremo, a agência poderia ordenar o desligamento das redes e verificar quem cumpriu ou não a determinação por meio da tabela global de roteamento, que define quais redes do mundo estão acessíveis.

O segundo é mais direto e mais perigoso: o chamado “lacre virtual”. Criado originalmente para combater pirataria, esse mecanismo dá à Anatel acesso remoto aos principais roteadores das operadoras. Com isso, a agência pode enviar comandos que bloqueiam faixas inteiras de endereços. Em termos técnicos, seria possível bloquear 0.0.0.0/0, que representa toda a internet.

Na prática, isso significaria puxar o plugue digital do país.

Governos já são os maiores responsáveis por quedas de internet

Dados da Cloudflare mostram que quase metade dos grandes incidentes de indisponibilidade da internet no mundo são causados por decisões de governos. Bloqueios determinados por autoridades respondem por 48% dos casos, superando falhas técnicas, acidentes, rompimento de cabos ou ataques cibernéticos.

Isso revela um padrão: quando o poder político entra em conflito com a circulação de informação, a infraestrutura digital vira alvo.

Dá para burlar um apagão?

Em tese, sim. VPNs, aplicativos criptografados, redes Bluetooth e conexões por satélite são algumas das rotas de fuga. Na prática, tudo depende do quanto o governo quer e consegue investir para bloquear essas alternativas.

No Irã, até o Starlink, que teoricamente seria mais resistente, tem sido neutralizado com sucesso por meio de jamming, uma técnica que interfere no sinal de rádio entre as antenas e os satélites.

Aplicativos que usam Bluetooth também cresceram em países sob censura. Um exemplo é o B-Chat, que permite troca de mensagens entre celulares próximos sem internet. Ele não permite navegar na web, mas mantém as pessoas conectadas em um nível básico. Em Uganda, onde o governo promete bloquear tanto a internet quanto esse tipo de app durante as eleições de janeiro de 2026, a disputa virou um teste global de até onde esse tipo de tecnologia consegue resistir.

No Brasil, isso seria legal?

Do ponto de vista jurídico, a resposta é quase direta: não.

O advogado especialista em Direito Digital, Luiz Augusto D’Urso, afirma que a Constituição brasileira não permite que o Poder Executivo suspenda o acesso à informação e à comunicação. Isso só poderia ser cogitado em situações absolutamente excepcionais, como estado de defesa ou estado de sítio, e mesmo assim com controle rígido do Congresso e do Judiciário.

Fora desse cenário extremo, bloquear a internet violaria direitos fundamentais como liberdade de expressão, acesso à informação e livre manifestação do pensamento.

Mesmo em uma hipótese absurda de tentativa de apagão, a medida seria rapidamente judicializada no Supremo Tribunal Federal. Além disso, parte da população buscaria rotas alternativas, como conexões via satélite, até que a ordem fosse derrubada.

O alerta que vem do Irã

O que acontece no Irã mostra que o controle da internet virou uma arma política. Não se trata apenas de infraestrutura, mas de poder sobre a circulação de ideias, denúncias e organização social.

No Brasil, as barreiras legais e institucionais tornam um apagão nacional altamente improvável. Ainda assim, o debate é real: quanto mais a política entra em choque com a rede, mais ela testa os limites do que é tecnicamente possível e juridicamente permitido.

A internet nasceu para ser descentralizada. A história recente mostra que, quando governos querem silenciar, eles tentam dobrar até mesmo essa arquitetura. A diferença entre uma democracia e um regime autoritário é o que acontece depois dessa tentativa.