Um novo malware desenvolvido no Brasil está transformando computadores corporativos infectados em mercadorias para o crime cibernético. Chamado de BraZetsu, o programa consegue analisar máquinas com Windows, identificar sistemas considerados valiosos e colocar o acesso remoto a esses computadores à venda por valores a partir de R$ 30.
A descoberta foi divulgada pela empresa de inteligência em cibersegurança Group-IB. O caso chama atenção porque o malware utiliza recursos de inteligência artificial durante o desenvolvimento e também na análise dos computadores comprometidos.
Malware cria uma espécie de “loja” de computadores invadidos
O BraZetsu está relacionado a um modelo conhecido como Initial Access Broker (IAB), ou corretor de acesso inicial.
Esses criminosos não precisam necessariamente executar o golpe final. O objetivo é invadir uma empresa, conseguir acesso a uma máquina ou rede e depois vender essa porta de entrada para outros grupos criminosos.
É justamente aí que entra o BraZetsu.
Depois de infectar um computador, o malware analisa o ambiente e procura informações que possam aumentar o valor daquele acesso. Os dados encontrados são organizados e enviados para uma plataforma clandestina, onde criminosos podem escolher quais computadores querem comprar.
Por que alguns computadores valem mais?
Nem toda máquina infectada possui o mesmo valor para os criminosos.
O BraZetsu consegue procurar elementos que indiquem que determinado computador pertence a uma empresa interessante para ataques financeiros.
Entre os alvos estão:
- Arquivos bancários no padrão CNAB;
- Certificados digitais;
- Sistemas de gestão empresarial;
- Softwares financeiros;
- Sistemas como TOTVS, SAP e Senior.
O CNAB, por exemplo, é utilizado por empresas para operações bancárias e pagamentos em lote. Por isso, encontrar arquivos desse tipo pode indicar que o computador possui acesso a informações financeiras importantes.
Na prática, o malware funciona quase como um avaliador automático de máquinas invadidas: quanto mais interessante for o computador, maior pode ser o interesse de outros criminosos em comprar aquele acesso.
IA ajuda criminosos a escolher os melhores alvos
Um dos aspectos mais preocupantes da ameaça é a utilização de inteligência artificial generativa.
Segundo a investigação da Group-IB, ferramentas de IA foram utilizadas durante o desenvolvimento do malware e também na análise dos sistemas infectados.
A tecnologia pode ajudar os criminosos a automatizar tarefas que anteriormente exigiriam análise manual, permitindo identificar rapidamente quais máquinas apresentam maior potencial para exploração.
Isso representa uma mudança importante no cenário de ameaças digitais.
Em vez de um criminoso precisar analisar individualmente cada computador invadido, parte desse trabalho pode ser automatizada.
Acesso pode custar apenas R$ 30
O preço inicial divulgado para os acessos é de aproximadamente R$ 30, pagos em criptomoedas.
A existência desse tipo de mercado reduz bastante a barreira de entrada para novos criminosos.
Uma pessoa que não possui conhecimento suficiente para invadir uma empresa pode simplesmente comprar um acesso já obtido por outro grupo e utilizar aquela máquina para realizar novas atividades criminosas.
É uma espécie de terceirização do ataque hacker.
Um grupo invade, outro vende o acesso e um terceiro pode utilizar a máquina para aplicar golpes, roubar informações ou realizar outras ações.
BraZetsu é ligado a um grupo chamado Exilware
A investigação atribui a operação ao grupo Exilware, formado por criminosos falantes de português.
Os acessos são comercializados em uma plataforma clandestina chamada Infect Marketplace, também conhecida como “Banco de Infects”.
Para participar desse ambiente, os interessados precisam pagar uma taxa mínima de entrada antes de consultar e adquirir computadores comprometidos.
O nome BraZetsu seria uma combinação de uma referência ao Brasil com Zetsu, personagem fictício conhecido por atuar nas sombras.
Como o malware chega ao computador?
A infecção começa principalmente com engenharia social.
Entre as estratégias identificadas estão mensagens falsas enviadas por e-mail, incluindo supostas cobranças ou intimações judiciais acompanhadas de arquivos PDF.
Também podem ser utilizados arquivos que imitam instaladores legítimos de programas conhecidos, fazendo a vítima acreditar que está instalando um navegador ou outro software confiável.
Ou seja, mesmo utilizando ferramentas sofisticadas depois da infecção, os criminosos ainda dependem de um dos métodos mais antigos para entrar nas máquinas: enganar o usuário.
Malware pode monitorar o computador em tempo real
Depois que consegue acesso ao sistema, o BraZetsu possui recursos que permitem acompanhar o que está acontecendo na máquina.
Isso é especialmente perigoso em computadores utilizados para atividades financeiras.
Os criminosos podem esperar até que a vítima esteja acessando um sistema bancário ou outra plataforma importante para assumir o controle e realizar ações fraudulentas.
Segundo a investigação, o malware também possui relação com o AgenteV2, outra ameaça brasileira identificada anteriormente, compartilhando infraestrutura e técnicas de monitoramento.
Arquivos financeiros podem ser manipulados
Outro recurso que chama atenção é a capacidade de trabalhar com arquivos financeiros.
O malware não simplesmente altera palavras ou números aleatoriamente. A investigação aponta que ele consegue reconstruir registros financeiros mantendo o arquivo dentro do formato esperado pelos sistemas responsáveis pelo processamento bancário.
Isso aumenta o risco de alterações fraudulentas passarem despercebidas em determinados processos automatizados.
Para empresas, esse tipo de ameaça é especialmente preocupante porque um computador infectado pode funcionar como uma porta de entrada para operações financeiras.
Ataques estão virando um negócio organizado
O BraZetsu mostra como o crime digital está cada vez mais parecido com uma empresa.
Um grupo pode ficar responsável por encontrar vulnerabilidades ou enganar funcionários.
Outro obtém o acesso inicial.
Uma terceira parte compra esse acesso.
Depois, outros criminosos podem utilizar a máquina para roubar dados, aplicar golpes ou tentar instalar ransomware.
Esse modelo permite que cada grupo seja especializado em uma etapa diferente do ataque.
Como as empresas podem se proteger?
Como a infecção depende principalmente de engenharia social, o treinamento dos funcionários continua sendo uma das principais formas de prevenção.
Empresas também devem:
- Evitar abrir anexos inesperados;
- Confirmar cobranças e documentos recebidos por e-mail;
- Não instalar programas enviados por fontes desconhecidas;
- Utilizar autenticação multifator sempre que possível;
- Monitorar acessos a sistemas financeiros;
- Manter Windows e softwares atualizados;
- Proteger certificados digitais;
- Monitorar computadores que acessam sistemas bancários;
- Utilizar soluções de segurança capazes de detectar comportamentos suspeitos.
Também é importante limitar as permissões dos usuários. Se uma máquina for comprometida, quanto menos acesso ela possuir dentro da rede corporativa, menor tende a ser o impacto de uma invasão.
O perigo vai além do computador infectado
O caso do BraZetsu mostra que o objetivo de um malware moderno nem sempre é simplesmente roubar informações.
O computador comprometido pode ser transformado em um produto.
O criminoso invade, coleta informações sobre a máquina, calcula seu potencial e coloca aquele acesso à disposição de compradores.
Com a ajuda da inteligência artificial para automatizar parte desse processo, ataques que antes exigiam mais trabalho manual podem se tornar cada vez mais rápidos e escaláveis.
Para empresas brasileiras, o alerta é ainda maior: sistemas financeiros, ERPs e arquivos bancários podem transformar um simples computador corporativo em um alvo extremamente valioso.