Vulnerabilidade no Linux permite acesso root e afeta distribuições há quase 20 anos

Uma vulnerabilidade crítica descoberta no kernel do Linux pode permitir que usuários sem privilégios administrativos obtenham acesso root ao sistema. A falha, identificada pelo engenheiro de segurança da SpaceX, Asim Viladi Oglu Manizada, recebeu o nome de CIFSwitch e afeta múltiplas distribuições Linux que utilizam o módulo CIFS em conjunto com versões recentes do pacote cifs-utils.

O mais alarmante é que o problema existe desde 2007 e só foi descoberto e corrigido em 2026.

A vulnerabilidade foi registrada sob o identificador CVE-2026-46243 e explora um erro no mecanismo de autenticação utilizado para acessar compartilhamentos de arquivos em rede.

O que é o CIFS e por que ele importa?

O CIFS (Common Internet File System) é um protocolo usado pelo Linux para acessar arquivos, pastas e dispositivos compartilhados em redes locais, algo comum em empresas e ambientes corporativos.

Quando um compartilhamento exige autenticação via Kerberos, o sistema não realiza esse processo sozinho. Em vez disso, o kernel delega a tarefa a um programa auxiliar chamado cifs.upcall, pertencente ao pacote cifs-utils.

Esse componente opera com privilégios de root e é responsável por recuperar credenciais temporárias de autenticação.

A comunicação entre o kernel e o cifs.upcall ocorre por meio do sistema de chaves do Linux, utilizado para armazenar informações temporárias de segurança.

Onde está a falha?

O problema está na forma como o kernel validava solicitações do tipo cifs.spnego, usadas durante o processo de autenticação.

Normalmente, essas requisições são criadas pelo próprio subsistema CIFS do kernel e incluem informações como:

  • Servidor de destino;
  • Usuário responsável pela conexão;
  • Processo que originou a solicitação;
  • Namespace associado.

No entanto, o kernel não verificava se essas solicitações eram realmente legítimas.

Na prática, qualquer usuário comum poderia criar uma requisição falsa e fazer o sistema tratá-la como confiável.

Como consequência, o programa cifs.upcall seria executado com privilégios de root utilizando informações manipuladas pelo invasor.

Como o ataque funciona na prática

O ataque ocorre por meio de uma cadeia de exploração relativamente sofisticada.

Primeiro, o invasor cria uma requisição falsa contendo um identificador de processo (PID) sob seu controle e um parâmetro específico que faz o sistema alternar para um namespace controlado pelo atacante.

Em termos simples, um namespace funciona como um ambiente isolado dentro do sistema operacional, definindo quais arquivos e recursos um processo consegue enxergar.

Ao mudar para esse ambiente malicioso, o cifs.upcall — ainda operando como root — passa a ler arquivos manipulados pelo atacante.

Entre eles está o arquivo nsswitch.conf, responsável por definir onde o sistema busca informações sobre usuários e grupos.

Esse arquivo aponta para um módulo malicioso criado pelo criminoso, que é carregado automaticamente com privilégios elevados.

No exploit de prova de conceito publicado pelo pesquisador, o código malicioso simplesmente adiciona o invasor ao grupo de usuários autorizados a executar comandos administrativos.

Na prática, isso concede acesso root completo à máquina.

Quais sistemas estão vulneráveis?

Segundo o pesquisador, diversas distribuições Linux podem ser exploradas nas configurações padrão.

Entre as confirmadas estão:

  • Linux Mint 21.3 e 22.3;
  • CentOS Stream 9;
  • Rocky Linux 9;
  • AlmaLinux 9;
  • Kali Linux (2021.4 até 2026.1);
  • SLES 15 SP7.

Outras distribuições, como Ubuntu, Debian, Pop!_OS e openSUSE, também podem ser afetadas caso o pacote cifs-utils esteja instalado.

Já sistemas como Fedora 40 a 44, CentOS Stream 10, Rocky Linux 10 e AlmaLinux 10 contam com proteções padrão do SELinux, que bloqueiam a exploração — embora a vulnerabilidade reapareça caso o mecanismo seja desativado.

Por outro lado, versões mais antigas do Amazon Linux 2 e do Kali Linux (2019.4 e 2020.4) não são afetadas devido ao uso de versões anteriores do cifs-utils.

Como se proteger

A correção oficial adiciona uma validação extra no kernel para garantir que apenas o próprio subsistema CIFS consiga gerar requisições do tipo cifs.spnego.

Enquanto atualizações não chegam a todas as distribuições, especialistas recomendam algumas medidas preventivas:

  • Remover ou bloquear o módulo CIFS caso compartilhamentos de rede não sejam utilizados;
  • Desinstalar o pacote cifs-utils quando autenticação Kerberos não for necessária;
  • Alterar regras do sistema request-key para impedir chamadas automáticas do cifs.upcall;
  • Desabilitar a criação de namespaces por usuários sem privilégios administrativos;
  • Aplicar patches de segurança assim que disponibilizados pela distribuição.

Um alerta para ambientes corporativos

Embora a exploração exija acesso local ao sistema, o impacto da vulnerabilidade é significativo, principalmente em ambientes corporativos com múltiplos usuários, servidores compartilhados e estações Linux conectadas a redes internas.

O caso também chama atenção pelo tempo em que permaneceu invisível: quase duas décadas desde sua introdução no kernel até sua descoberta.

Isso reforça um ponto recorrente na segurança digital: até componentes maduros e amplamente utilizados podem esconder falhas críticas por muitos anos.